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Comic City Con: Bate-papo com Marcelo Ferreira e Maurílio DNA, da Anima Academia de Arte

A Comic City Con, realizada no último sábado, 29, contou com palestras de ilustradores e um workshop de desenho. A primeira palestra, que ocorreu entre 11h e 13h, teve a presença de Marcelo Ferreira e Maurílio DNA. Foi um clima descontraído, onde os quadrinistas conversaram com a platéia sobre o ofício de ilustrador, o mercado brasileiro de quadrinhos, a mídia digital e os projetos em que, atualmente, estão envolvidos.

Marcelo Ferreira, além de dar aula na Academia Anima, trabalha atualmente na editora Ape Comics com quadrinhos licenciados da Dreamworks, dos quais já fez o Riquinho e uma revista que faz a ligação entre os longas metragens Madagascar 2 e Madagascar 3. O forte da editora em que trabalha são os produtos licenciados, como quadrinhos de Games diversos, inclusive de aplicativos para IOS ou Android. Existe bastante adaptação desses jogos para quadrinhos e vendem muito por causa do mercado digital.

Já Maurílio DNA é professor da Academia Anima de Animação, desde 1999, e ilustração, desde 1997. Entre diversos projetos, participou da produção do desenho da Disney A Princesa e o Sapo, vencedor do prêmio de melhor desenhista no 28° Angelo Agostini, de 2012. Atualmente, trabalha na Ação Magazine, no segmento Tunado, um projeto que se desenvolve desde 2006. A Ação Magazine #3 sairá no fim de outubro e terá um lançamento em Recife. Confira, abaixo, o bate-papo que rolou entre os palestrantes e a plateia:

Você acha que falta divulgação do trabalho do ilustrador?

Marcelo: Falta muita divulgação, muitos não sabem, mas tem muita gente em Campinas que trabalha com quadrinhos. A Gisela Pizzatto fez um álbum para o mercado europeu que será lançado ano que vem, junto com o Bruno que também dá aula na escola. O Maurílio e mais um ex-aluno nosso, que é parte da Ação Magazine, uma revista de mangá que vai retomar no próximo mês. O legal da escola é que a gente dá aula e sabe do que está falando porque trabalhamos nesse meio. Temos bastante experiência ensinando e atuando no campo.

Como funciona esse mangá brasileiro?

Maurílio: O legal da revista Ação é abrir a possibilidade de artistas brasileiros publicarem seu trabalho, mantendo o estilo mangá. O modelo editorial é o mesmo praticado nos mangás periódicos do Japão, algo inédito no Brasil. É um almanaque que reúne 5 ou 6 títulos independentes, mas seriadas e, eventualmente, formar encadernados de arcos fechados das séries de maior sucesso. O grande diferencial é a adoção desse modelo editorial. O maior empecilho que a revista encontrou foi a dificuldade de encontrar investimento e distribuidores que, geralmente, se negam a distribuir poucos exemplares. A revista foi lançada em julho de 2011, o segundo número em abril de 2012, mas a partir do terceiro número, em outubro, deve se regularizar como uma revista bimestral. Além da distribuição em banca, tem a venda pela internet com frete gratuito. É um projeto que pretende inspirar novos projetos e possíveis investidores para iniciativas futuras similares. Quem gosta de desenhar mangá tem um canal para tentar publicar no Brasil.

Como funciona o aprendizado do desenho? O aluno sempre reproduz o estilo do professor?

Maurílio: O Marcelo é muito autodidata e, normalmente, quem aprende sozinho tem o traço parecido com o artista que gosta. E, com o tempo a pessoa vai se libertando e criando um estilo próprio. No caso, quando o aluno aprende por meio de aulas, sua referência é o professor e o traço vai se aproximar ao dele, mas da mesma forma ele passa a ter um estilo próprio com a prática.

Como é o trabalho do ilustrador? Usa-se muita referência?

Maurílio: A gente não é obrigado a saber desenhar tudo de cabeça, principalmente, as coisas mais especificas.

Marcelo: Tem que ter referência o tempo inteiro, principalmente, em quadrinhos.

Maurílio: Quando foi feito o desenho da Branca de Neve, eles estudaram pessoas dançando em um estúdio para, depois, passar para um desenho.

Como é o trabalho de um desenhista de animação?

Maurílio: Minha experiência com A Princesa e o Sapo foi com apenas de um minuto e meio de exibição, mas tem que se ter em mente que cada segundo de um desenho animado varia de 12 a 24 quadros, onde se utiliza 12 quadros apenas nos momentos mais rápidos ou mais lentos. A ilusão da animação junta todos esses desenhos parados para dar a ilusão do movimento. Mesmo aqueles desenhos que misturam 2D e 3D, temos todos os objetos de cena e personagens desenhados a mão e escaneados. A fluidez da movimentação proporcionada pela mão do artista é de difícil reprodução no computador. Mas, o computador facilita muita coisa: depois de escaneada as imagens, os desenhos são colocados na seqüência, testa-se a velocidade para procurar se tem algo de errado e qualquer problema é corrigido novamente a mão. A aprovação, mesmo sendo nos EUA – devido a informatização do serviço – ocorria em questão de minutos.

A variedade de plataformas digitais muda alguma coisa para o ilustrador?

Marcelo: A empresa em que eu trabalho é especializada em produtos licenciados. Não apenas a Dreamworks, Riquinho entre outros. Temos adaptações de games. Vou começar um trabalho com a adaptação em quadrinhos do jogo Fruit Ninja, que será vendido junto com o jogo por US$ 0,99. A vantagem de trabalhar com uma mídia bem difundida no meio digital é que a produção da adaptação será voltada para o mesmo público que usa o aplicativo. Torna-se muito acessível e barato para o mundo inteiro. Terá também uma animação sobre o Fruit Ninja, mas ainda não tem uma emissora certa. Em comparação com os EUA, durante a Comic Con, eu percebi o quanto é difundido os tablets e iphones nesse país. Dessa forma, fica muito mais fácil, até automático, a compra da revista de um jogo que todo mundo conhece. O único fator negativo é a “cultura” do download, que existe em alguns lugares como o Brasil. A galera precisa entender que R$ 2,00 é barato, ainda mais se considerar que é esse dinheiro que financia a produção e os artistas envolvidos. Enfim, o custo maior, que é a impressão e distribuição, já foi cortado. Para indústria, isso é positivismo. Eu acho que o mercado digital ainda irá bancar o mercado impresso. Me questiono como será a próxima geração e sua relação com o papel. Veja as editoras grandes como a DC e a Marvel. Embora todo ano a indústria dos quadrinhos reclame todo ano que está em crise, eu não percebi isso em nenhuma das vezes que fui a San Diego, parece que tem cada vez mais público.

Maurílio: Imagino que a crise deve ser por que as grandes editoras não estão mais faturando tanto quanto antes e eles ficam choramingando que estão em crise. Enquanto que as menores estão começando a crescer e começam a pegar uma fatia maior do bolo.

Marcelo: Para o artista, a gente sentiu que o mercado melhorou. Cada vez mais, o artista é reconhecido e valorizado. Tem gente que vive só de fazer sketch[book].

Maurílio: A internet também ajudou muito. Eu mesmo comprei um livro de um coreano. Imagina a facilidade. Só não foi mais fácil porque o frete saiu caro. Mas, imagina: eu entrei em contato com um quadrinista muito bom da Coréia pelo Facebook e ele foi super acessível. Me passou o contato do agente dele e pude fazer a compra. Ele tá divulgando o trabalho dele pela internet. Tem um caso de um pessoal de São Paulo que faz uma página de quadrinhos por semana. Fez sucesso. Daí, o IG fez uma parceria com o site e isso permitiu ao autor publicar o trabalho. Para o artista, facilitou muito porque ele não tem que, necessariamente, trabalhar para uma editora. É bom trabalhar para uma grande editora porque você tem seu salário certinho, você tem seu trabalho exposto, a própria editora cuida da divulgação. Afinal, ela também quer ter o retorno financeiro. Mas, a visibilidade que os artistas tiveram com a internet é muito maior. Visibilidade no sentido do contato direto entre o artista e o fã. A internet acaba “financiando” o trabalho do artista.

Marcelo: Na Comic Con, eu tive a experiência de ver diversas pessoas, de diversas idades, comprando as revistas, mesmo as que existem no meio digital. Quer dizer, basta ofertar, basta ter e a revista impressa será vendida.

Plateia: Acho que, cada vez mais, os adolescentes gostam de ter agilidade na informação. É mais fácil você “entrar” num site e “baixar” a revista do que ir à banca e comprar ou esperar chegar na sua casa. O imediatismo é um fator bem importante nessa análise.

Maurílio: Tem, também, o lance da experimentação. É legal você pagar um ou dois reais em alguma coisa nova, que você nunca viu e não sabe se vai gostar ao invés de gastar R$10,00, que é o preço médio dos mangás, por exemplo, e depois se arrepender. É um risco baixo. A internet funciona bem como amostra, também. Quem é colecionador, tem certo fetichismo com o quadrinho físico, que a versão digital não satisfaz.

Marcelo: É uma cultura. O material digital vem só a acrescentar. Eu acho positivo. Tem gente que se preocupa, mas eu acho positivo. Até aumenta o público leitor. Mas, até a próxima explosão solar, os meus quadrinhos ainda estarão lá. Coitado de quem só tem no HD.

Qual foi a maior dificuldade que vocês enfrentaram na profissão?

Marcelo: Eu não sei se sou muito indicado para responder porque eu comecei muito cedo. Vou completar 15 anos de carreira. Comecei com 19 anos. Para mim, eu não lembro de ter tido grande dificuldade porque a minha carreira acompanhou meu desenvolvimento pessoal. Quando eu tinha 19 anos, eu morava com meus pais, então não precisava ganhar muito dinheiro. Você começa pequeno, trabalhando pouco e ganhado pouco. Eu dava aula para complementar porque as aulas são um acesso ao dinheiro mais rápido. Eu comecei a dar aula por causa do dinheiro, mas acabei gostando de ensinar e até hoje eu dou aula. Apesar de estar muito ocupado desenhando, eu reservo duas ou três aulas por semana. No começo, eu dava aula quase todo dia. Comecei como freelancer, cada vez pegando mais trabalho e pude programar minha vida pessoal, também. Eu nuca tive desanimo. Muita gente tem desânimo e medo. E, isso não pode acontecer. Tem que mostrar seu trabalho. Olhando para trás, eu percebo o quanto meu traço melhorou. No início, eu não poderia trabalhar para a mesma empresa que trabalho hoje, mas eu encontrei pessoas na época que me conseguiram oportunidades. A pessoa podia pagar pouco. Achou você porque topava receber pouco. Consequentemente, ela também não ia esperar um trabalho tão complexo e você acha essas oportunidades para ir crescendo. Você passa um ou outro período de dificuldade, mas vai se equilibrando. O importante é insistir sempre. E, eu acho que o quanto antes você puder começar é melhor. Pois, essa carreira é muito independente. Você tem que se bancar o tempo todo.

Maurílio: Comigo não foi diferente a questão da qualidade do trabalho. A prática leva, invariavelmente, a melhorar o traço. Você vai trabalhando e seu trabalho vai melhorando. Enquanto estiver trabalhando, a qualidade vai sempre se aprimorando. Quanto a dificuldade, eu vejo que é a de encontrar o cliente. Você esta no começo. Não ira encontrar tanto trabalho. Sua técnica também não é tão boa quanto você gostaria que fosse. Então, você acha um cliente que pode pagar um tanto que você acerta e aceite a qualidade do seu trabalho e as coisas se encaixam. Naturalmente, você vai evoluindo. Você vai começando a ganhar mais, a arriscar mais, tentar coisas novas e seu crescimento pessoal está extremamente atrelado à sua pratica. É exatamente igual a qualquer outra carreira. Esbarra no preconceito que existe impregnado em nossa cultura de aceitar isso. No senso comum, o artista é considerado um desocupado. Mas, estamos aqui como exemplo. A gente rala. Vez ou outra, contamos com os amigos porque sempre estamos atolados de trabalho. E, tem que trabalhar bastante porque é o que faz o traço melhorar e segundo que, quanto mais, melhor. No caso, em que não temos um emprego com salário certo no fim do mês, nosso salário depende diretamente da nossa produção diária.

É possível, hoje em dia, viver de quadrinhos no Brasil sem estar trabalhando para o exterior?

Maurílio: Para quadrinhos, acho que não rola. Ainda.

Marcelo: Aqui no Brasil, ainda não.

Maurílio: O que o pessoal faz para ficar no mercado é trabalhar com ilustração publicitária, editorial e desenvolver projetos pessoais com base no digital e, depois, migrar para a mídia física. É um caminho que alguns tem encontrado. Eu tô publicando na Ação Magazine, uma revista nova que tem a proposta de abrir espaço para novos autores publicarem seu trabalho, desde que desenhe no estilo mangá. Minha esperança é que este projeto, vingando, possibilite novos projetos semelhantes com outros estilos. Por que não ter uma revista seriada com cinco ou seis títulos de diferentes gêneros (como se fosse um canal de seriados)?

Qual a opinião de vocês quanto ao crescimento do mercado de quadrinhos brasileiros? O quanto isso advém de incentivos como o PROAC ou sites como o Catarse?

Marcelo: É bom ficar animado, mas é preciso tomar cuidado com o alarde de certas coisas. Precisa encarar as situações com certo realismo. É muito legal todo mundo ficar animado no Brasil. Realmente, o volume de publicações aumentou muito de dez anos para cá, mas ainda não temos um mercado. Ter um mercado significa que temos um número de profissionais trabalhando, regularmente, colocando produto à venda aliado a um público também regular. Algo que gira, de certa forma, sozinho. No Brasil, isso ainda não existe, exceto no mercado infantil sustentado pela Maurício de Sousa Produções. Nos meus 15 anos trabalhando como ilustrador, a maioria dos trabalhos foi para o nicho infantil. No mercado brasileiro, o desenho infantil é muito bom e vende muito. E, o Maurício de Sousa sustenta sozinho isso. Tirando a Turma da Mônica, não sobra quase nada. Nos anos 60, ainda existia o Ziraldo, mas, por alguma coisa, deu errado e agora só sobrou o Maurício. Fora isso, não existe mercado: são produções independentes voltadas para um público que já é leitor. O PROAC, acho legal. Mas, eu tenho muita resistência a setores sustentados pelo governo com verba pública. É para dar um gás, uma motivação. Mas, existe gente que vive disso com certa dependência. O Brasil está passando por uma época em que parece que tudo precisa do Estado. E, essa dependência está contaminando o setor dos artistas e é preciso tomar cuidado com isso. Eu quero ser independente sem ficar precisando pegar verba do PROAC a toda hora. Para um projeto ou outro é legal, mas tem gente que acha que essa é a única forma de sobreviver com quadrinhos, mas não é. O PROAC tem uma verba que não é muito grande. São R$ 40.000,00, mas não é tanto se você pensar que precisa pagar todos os envolvidos. Têm viagens, impressão, distribuição entre outras coisas. Então, não pode ficar dependente disso. Tem que passar por uma educação geral, até do publico leitor. Mas também, o brasileiro não compra muito produto nacional porque não tem tanta coisa boa saindo. Vamos ser honestos: o Brasil é muito deficiente, principalmente, em roteiristas. Não só de quadrinhos, mas de teatro e cinema, também. E, os ilustradores que já atingiram certa qualidade ficam desesperados por um bom texto. Vemos histórias americanas, japonesas e européias tão legais, mas as brasileiras realmente são muito fraquinhas. Eu, na condição de artista, leio umas coisas e falo: ”Não tenho vontade de desenhar isso”.

Plateia: Um reflexo disso é percebido pelo número de brasileiros que trabalham no exterior como ilustradores em comparação ao de roteiristas.

Marcelo: É que nem na música: todo mundo quer ser guitarrista. Somos os guitarristas dos quadrinhos. Mas, tem o arte-finalista, o roteirista, o colorista e são caras que vão construir ou destruir o trabalho.

Plateia: Precisaria valorizar mais esses outros artistas. Teve a gaúcha Cris Peter que concorreu ao Prêmio Eisner como melhor colorista pela revista Casanova: Avaritia, Casanova: Gula (Marvel Icon).

Maurílio: Ela coloriu também o álbum, que será lançado, da Turma da Mônica, O Astronauta.

Marcelo: O carma do Maurício é mesmo o de salvar os quadrinhos nacionais. Se você perceber, o Ouro da Casa é muito bom. É um encadernado de histórias que reúne os artistas do estúdio do Maurício desenhando a Turma da Mônica. Cada um com seu estilo próprio. Eu acho que o grande problema é que as pessoas têm muito medo quanto ao retorno financeiro. Os financiadores tem que entender que o material é bom, o nível artístico dos ilustradores brasileiros é excelente, tanto é que tem diversas pessoas trabalhando no mercado internacional. É interessante que não existe preconceito da parte dos americanos, eles gostam da arte e se ela for boa, eles contratam. Não importa se é brasileiro, coreano, italiano, etc. Comigo aconteceu quando eu mostrei meu trabalho: primeiro, eles elogiaram, se empolgaram e, só depois, me perguntaram de onde eu era. Eles não estão interessados na origem do artista, mas na sua arte.

Maurílio: É uma postura profissional.

Como funciona a interferência editorial?

Marcelo: Ela é bem pouca. No meu caso, meu trabalho sofre uma interferência maior por causa do licenciador. Por exemplo, eu trabalho com muito produto licenciado, como os personagens da Dreamworks. Eu fiz o prequel em quadrinhos do filme Madagascar 3. Depois que eu fiz o desenho, ele foi para a Dreamworks para ser corrigido, pois eu não sou o designer dos personagens e tenho que seguir a linha do desenho. Eu fiz os desenhos, mandei para os EUA e eles passam a redline nos desenhos para os acertos. Essa capa foi completamente alterada. Ela foi e voltou umas quatro vezes. No fim, o cara redesenhou a capa completamente. Foi meio chato isso. É a parte mais chata que tem, mas não é a parte da editora, é coisa do licenciador. Tem trabalhos meus com a Dreamworks que foram pouco corrigidos. Depende muito das circunstâncias. Por exemplo: eu fiz o Riquinho e o licenciador interfiria muito pouco, só se fizesse alguma coisa muito absurda com o personagem. Vou fazer o Fruit Ninja agora e os criadores do game são muito tranqüilos. Eles gostam de quase tudo. Na editora, basicamente, atuo da seguinte forma: minha percepção é de que, tudo o que eles fazem, é para divertir. Mesmo se tratando de milhões de dólares, ainda é de forma prazerosa. Se tá feio, eles falam para corrigir. Mas, numa boa.

Maurílio: Acho que rola um pouco de preconceito, aqui no Brasil, da parte dos próprios artistas. Tem muito artista de quadrinhos blasé. E, quadrinho é uma coisa para diversão, muito parecido com o cinema. Hoje em dia, podemos nos aproximar ainda mais com seriados de TV. E, tem muito artista brasileiro que se considera o Portinari. Querendo mudar o mundo. Podia ser uma coisa bem mais tranquila: fazer porque é divertido e fazer para divertir as pessoas. E, então esbarra em outra coisa: porque o quadrinho infantil é tão forte no Brasil? Por que a grande maioria das pessoas acha que gibi é coisa de criança e ponto. No fim das contas, o que acontece é que as pessoas param de ler gibi. As pessoas começam com Turma da Mônica ou Disney quando criança, é o que interessa a eles. A grande maioria das pessoas para de ler quadrinhos depois de uma certa idade porque não tem mais assunto que interesse a ele. Falo por experiência própria: fiz uma história sobre corrida de carros. Um rapazinho que compra um carro, coloca um turbo e vai tirar racha na rua. Depois, tive que mudar isso porque não pode ser na rua. Meu estilo é um pouco mais realista de mangá e não é totalmente aceito. Nem entre os desenhistas de quadrinhos, nem entre os desenhistas de mangá. É uma história um pouco mais densa. Não é o tradicional “capa e espada”. A aceitação não foi tão boa. Então, eu fui atrás do pessoal que gosta de carros, levei para uma equipe em São Paulo que pratica drift (manobras de derrapar carros) e eles adoraram. Levei numa convenção e mostrei para uma revista especializada. O que aconteceu: eu entrei com uma história em quadrinhos mais ou menos como se eu tivesse feito um seriado do filme Velozes e Furiosos e foi um sucesso por conhecer o público-alvo. Voltando a progressão dos quadrinhos, as crianças que liam Turma da Mônica começam a crescer e passam a gostar de super-heróis, continuam lendo quadrinhos. Ou vão para Turma da Mônica Jovem, ou acabam se interessando por quadrinho europeu. Mas, e se o cara desencana e gosta de carro? Ou gosta de artes marciais? Ou sobre qualquer outro assunto? Não tem mais gibi sobre esse assunto. Coisas interessantes e bem feitas, acho que é isso que falta.

Marcelo: Uma vez, estava assistindo a um Café Filosófico, que passa no espaço cultural da CPFL, e o filósofo que palestrava falou que o Brasil não tem cultura de gêneros. Não temos aquilo de gostar de terror, ou ação, ou comédia. É tudo geral, muito geral. Como se a gente fosse uma colônia de abelhas pensando igual, e não é. Cada ser humano tem um gosto muito especifico. Nos EUA, por exemplo, que é o país do entretenimento, a cultura de gênero é muito forte. No Japão, também. Seriado, TV, filmes, quadrinhos. Tem para cada segmento. Até as novelas, se você fizer uma novela muito especifica, ela não terá audiência. Aqui, se for ao gênero, você tem problema.

E as cartilhas didáticas do Maurício de Sousa?

Maurílio: Acho que, por muito tempo, o trabalho com as cartilhas foi uma forma de escape. Uma forma de superar o preconceito com o artista apresentando algo didático. Eu tenho um livro didático japonês de história. Quando o aluno estudava um período específico, como o dos samurais, é super fantástico. Mas, é a história do Japão. É o mesmo que fazer uma história em quadrinhos da corte do imperador. Porém, ou ninguém explorou muito bem, ou realmente não existe muita graça como tem os samurais. Nessa cartilha, tem uma seqüência em mangá ilustrando uma passagem da história. Esse tipo de uso do quadrinho já é fortemente usado fora do Brasil. E, aqui, por causa desse preconceito com gibi da população em geral, é uma luta. É uma ferramenta muito forte. É imagem, texto e interação com o personagem. Para uma criança, é muito mais fácil absorver aquela informação. Existem inúmeros projetos em Educação e Arte e outras disciplinas nas faculdades dissertando sobre o uso didático das histórias em quadrinhos. Nos livros escolares, ainda aparecem algumas tirinhas como exemplos de construção de texto.

Marcelo: Acho que, basicamente, aqui no Brasil só falta um último passo que é o quadrinho pelo quadrinho. Parece que sempre o quadrinho tem que ter uma desculpa, seja ele ser didático ou institucional, como campanha. Faltam as pessoas lerem porque, simplesmente, é divertido.

Maurílio: As pessoas tem que comprar o gibi pelo mesmo motivo que elas veem novela, ou por que compram um DVD para assistir a um filme. É entretenimento.

É interessante fazer fanzines para quem está iniciando na carreira?

Marcelo: Não.

Maurílio: Você perde um pouco de tempo e acaba perdendo o foco.

Marcelo: Eu sou a favor do fim do fanzine. O nome já diz: revista de fã. O fã jamais será um profissional. Você tem que sair da mentalidade do fã para ser um profissional. Em casa, você pode virar o Sheldon [do seriado The Big Bagn Theory].

Maurílio: Pode ser fã, mas quando você estiver fazendo um trabalho, você tem que ser profissional. Tem que deixar de lado o fã.

Marcelo: Por experiência própria, para entrar no mercado americano, essa mentalidade me atrapalhou durante muitos anos. Eu não entendia como o Ivan Reis podia ser o top da DC, fazendo Superman, sendo que ele jamais havia lido uma revista de super-herói porque ele não gostava muito do gênero. Você pensa que o cara é um pilantra. Pensando: “Como esse cara que, não gosta de super-herói, está desenhando e eu não estou?” Simples: porque ele é um excelente desenhista. É profissionalismo. Ele falou que gosta da estética. Ele sempre achou muito bonito, mas ele não sabe o que aconteceu na edição número 52. Não é esse tipo de cara e isso o ajudou. Ele não tem essa paúra de: “Estou desenhando o Superman”. Fechando a idéia, o fanzine tem um nível de exigência muito baixo. É uma linguagem muito alternativa que não é comercial. Então, se você quer se preparar para o ramo comercial, o fanzine é um péssimo preparatório porque ele aceita tudo. Enquanto que o comercial só aceita o que for vendável. Por exemplo: meu portfólio, que levei em 2010, para a Comic Con New York, foi o que me proporcionou começar a trabalhar para fora. Ele recebeu muitas críticas boas e outras construtivas, para melhorar o trabalho. Não existe isso de alguém chegar e destruir seu trabalho. Você tem que estar num caminho visando o comercial. Eu acho que o fanzine é uma perca de tempo para quem quer almejar trabalhar com o comercial. Vá desde o início no comercial. Faça um curso, pergunte sobre tudo, aproveite os eventos para conhecer outros artistas e converse com eles. Tire todas as suas dúvidas e não tenha pressa. Nunca se ache muito velho. Na Comic Con desse ano, eu conheci um desenhista novato que tinha algo entre 40 e 50 anos de idade, mostrando o portfólio e era muito bom.

Para quem se interessa e está começando agora, quais as dicas?

Marcelo: O primeiro passo é colar em quem está fazendo. É importantíssimo porque, ficar sozinho, pode ocorrer em muitos erros de julgamento. Ficar junto de alguém que já trabalha com isso, para perguntar, aprender a mentalidade profissional para, diariamente, semanalmente, essa pessoa estar passando as dicas de como fazer. O profissional irá te tirar das “viagens”. É importantíssimo sempre ter humildade em ouvir sobre seus problemas. Como professor, eu já ensinei a algumas pessoas que não gostavam de ouvir criticas. E, esse tipo de pessoa não vai para frente. Gostar de ouvir criticas ninguém gosta, mas, se é um cara que tem gabarito, que tá querendo te ajudar, você precisa ouvir. Ele não está querendo te destruir, mas te ajudar. Tem muita gente que esquece a crítica como fator construtivo. Além de colar em alguém que já trabalha no ramo, tem que trabalhar muito, quanto mais prática melhor. É preciso da pratica diária. Se eu ficar uma semana semdesenhar, os primeiros desenhos acabam saindo meio ruins. O corpo precisa aprender. Todo mundo gosta do trabalho da gente porque parece que somos espontâneos…

Maurílio: …Mas aí são anos de prática.

Marcelo: E precisa ser um cara com uma mentalidade exploratória. Sempre pesquisar sobre coisas novas, sobre o tipo de desenho que você gosta de fazer, sobre o autor preferido. E, de preferência, sempre ter um plano B. Se uma coisa não der certa, sempre ter um segundo plano. Eu sempre tive meu plano B. Enquanto não surgia a oportunidade de trabalhar para os EUA, fui fazer ilustração.

Maurílio: Tem gente que aprende sozinho. Legal. Mas, ter um professor ensinando é bom porque ele vai te ajudar a pisar nas pedras certas. Tem que pensar também que, ao chegar no fim do curso, você terá que procurar o seu estilo, aquilo que você gosta de fazer. Experimente todos os tipos de trabalho, diversas técnicas de desenho, para você descobrir no que você é bom. Eu sempre sugiro: escolha um mestre e estude o estilo dele. Quando você esta aprendendo, copiar não é feio. Você está estudando o estilo do cara, descobrindo como ele resolve as coisas. A cópia é um exercício muito bom, mas depois você tem que vender a sua arte. Fazer um bom curso ajuda muito.

Marcelo: Eu sou autodidata, mas isso é para quem tem um perfil como o meu: mais metódico e disciplinado. Porque, também, tem os contras: quando eu tenho uma dificuldade, é mais difícil resolvê-la.

Maurílio: Para mim, eu gosto de ter as aulas nos momentos de dificuldade. Uma dica que alguém dá pode te destravar e resolver diversos problemas. Estar na aula e produzir na aula também exige que você trabalhe.

Plateia: A escola também ajuda a conseguir contatos, como criar um grupo de amigos que se tornam sua referência e possibilita um crescimento conjunto.

Marcelo: É muito legal você ter um contato com pessoas do seu nível, além de ter diferentes professores que tem influências diferentes. Estar em contato com pessoas que atuam no mercado de trabalho é inspirador.

Publicado originalmente por: Quadrinhos em Questão