[REVIEW FILME] – 300 – A Ascenção do Império

(300: Rise of an Empire). EUA, 2014, 1h 42 min. Direção: Noam Murro. Com: Sullivan Stapleton, Eva Green, Rodrigo Santoro, Lena Headey, Jack O’ Connel, David Wenham. Épico/Ação. Warner.

Novo filme traz a mesma fórmula do anterior, banhos de sangue com estilo

O embate real travado entre espartanos e persas em meados de 480 A. C., que ficou conhecido como Batalha das Termópilas (nome que faz referência ao desfiladeiro onde se deu a contenda, e que significa “Portões Quentes”), já havia rendido um longa para cinema em 1962, Os 300 de Esparta. De baixo orçamento, a produção se propunha a mostrar, de maneira realista, porém épica (e os épicos estavam em plena evidência nas décadas de 1950 e 1960) o famoso episódio em que o gigantesco império liderado por Xerxes, com um exército formado por milhares de persas, teve sua invasão à Grécia bloqueada por alguns dias por conta de poucas centenas de soldados espartanos que resistiram bravamente à investida… até a morte. Em 1998, o influente escritor e ilustrador de histórias em quadrinhos Frank Miller fez sua versão da história, tomando liberdades criativas e introduzindo elementos fantasiosos. Miller explorou a linguagem cinematográfica nas páginas de sua publicação, valorizando, inclusive, o widescreen nas imagens que idealizou e “fotografou” no papel. Alguns anos depois, Miller fez o caminho inverso, trazendo a narrativa dos quadrinhos para o cinema, ao realizar, em 2005, juntamente com os cineastas Robert Rodriguez e Quentin Tarantino, o filme policial noir Sin City, adaptado de outra de suas HQs. A boa receptividade do longa, cujos cenários foram acrescentados digitalmente na pós-produção, e cuja belíssima fotografia em p&b realçava alguns detalhes coloridos e criava um jogo de luzes e sombras até então nunca vistos no cinema, contribuíram para que a Warner comprasse a ideia de uma nova adaptação nos mesmos moldes. Sob a direção de Zack Snyder, 300, uma epopéia pop-épica, lançada dois anos depois, desta vez privilegiando os tons avermelhados, agradou.

Frank Miller quis explorar mais essa história, porém sob outro ângulo, ao escrever a graphic novel Xerxes, e esta foi a base utilizada por Zack Snyder para roteirizar o novo longa, do qual também é produtor. A trama ocorre simultânea aos eventos mostrados no primeiro filme, e foca, de maneira fantasiosa, o conflito, também real, ocorrido no Estreito de Artemísio, no Mar Egeu, em que os atenienses, sob o comando do general Temístocles (Sullivan Stapleton, que não tem a mesma segurança do Leônidas de Gerard Butler, que aqui faz uma rápida aparição), pretendem fazer frente à invasão persa, que se aproxima com sua gigantesca marinha a serviço da guerra, comandada por Artemisia (Eva Green, de beleza hipnótica) que, por sua vez, responde apenas a Xerxes (Rodrigo Santoro, se sentindo à vontade e devidamente estabelecido em Hollywood). O roteiro mostra ainda a origem do “rei-deus” persa, e o motivo de seu ódio pelos gregos, além de abordar também a nova investida dos aliados em Salamina (onde se unem novamente com os espartanos, desta vez sob a liderança da Rainha Gorgo, vivida pela mesma Lena Headey do longa anterior), onde pretendem conter definitivamente o avanço persa, o que só aconteceria de fato na Batalha de Platéias, ocorrida um ano depois, e citada brevemente no primeiro filme. Ou seja, se houver interesse por uma trilogia, o caminho está aberto.

A direção do longa ficou a cargo de Noam Murro. Egresso da publicidade, Murro (sobrenome sugestivo para conduzir um filme desse gênero) até então havia dirigido apenas um longa para cinema, a comédia Vivendo e Aprendendo (2008). A personalidade do cineasta é totalmente imperceptível, já que o que vemos aqui é um padrão de direção que não altera uma vírgula do estilo adotado por Snyder no longa anterior. Quem gostou do original, portanto, já sabe o que esperar desta nova produção. Ambientação tempestuosa, regada a uma mistura de cores que valorizam as sombras, desta vez privilegiando o azul-marinho (literalmente), cenas de batalha, agora quase todas no mar, cuidadosamente filmadas, com closes em câmera lenta, enquadramentos dignos de serem emoldurados, indiscutivelmente inspirados pelas páginas da mídia original da qual o filme foi adaptado, os quadrinhos, e claro, sangue, muito sangue. Aliás, quem optar por ver em 3D, vai presenciar banhos e banhos do líquido vermelho-escuro jorrando em direção à tela, em uma profusão transbordante de brutalidade e selvageria.

Quem também transborda no filme é Eva Green, no quesito sedução. Ao viver, com um exagero adequado ao papel, a impulsiva Artemisia (que também teria realmente existido), ela exala sensualidade em cada frame em que aparece, e em cada iniciativa militar (ou não) que toma. A ardente sequência de sexo que ela protagoniza, coreografada com a mesma intensidade e truculência vista nas batalhas, traça um curioso paralelo com o confronto mostrado posteriormente, envolvendo os mesmos personagens. No desfecho da referida cena, há uma óbvia referência de conotação sexual, evidenciando a virilidade que o filme o tempo todo faz questão de lembrar ao espectador, a exemplo do que também fez o longa anterior, e com isso afundando qualquer possibilidade de desenvolvimento dos personagens. Mas essa nunca foi a proposta, 300 – A Ascensão do Império é um filme de exageros, em muitos sentidos. Há, claramente, por parte dos idealizadores, uma tentativa de superar o original, mas mesmo que a ação seja estilizada ao extremo, a história rasa e a falta de carisma dos protagonistas gregos comprometem este objetivo, ainda mais quando os próprios atenienses nos lembram que são lavradores com espadas, ao contrário dos espartanos, os “heróis” do primeiro filme, que têm uma cultura militar desde a infância.

A recomendação do filme para maiores de 18 anos deixa clara a sua proposta, a de agradar a um público essencialmente masculino, que sabe exatamente o que quer ver. Uma história rasa, em que haja lâminas bebendo sangue, muito sangue. Ao menos aqui o cardápio é oferecido com estilo.

 Veja o trailer do filme: