[REVIEW FILME] – O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro

(The Amazing Spider-Man 2). EUA, 2014, 2h 22 min. Direção: Mark Webb. Com: Andrew Garfield, Emma Stone, Jamie Foxx, Sally Field, Dane DeHaan, Paul Giamatti. Aventura. Sony.

Emoção e comoção marcam nova e eletrizante aventura do popular herói

A vida nunca foi fácil para o Homem-Aranha. Peter Parker sempre lidou com perdas em toda a sua jovem vida. Ainda na infância, foi deixado pelos pais para viver com os tios, por motivos até então desconhecidos. Eles o criaram e o amaram como se fosse seu próprio filho. Já na juventude, Peter perde o tio Ben, sob circunstâncias que lhe cobrem de remorso por acreditar que poderia ter feito algo para impedir esta fatalidade. O peso que carrega na consciência o incentiva a utilizar suas habilidades recém-adquiridas para o bem, e a cada vida que salva, a dor da perda é levemente amenizada. Mas Parker sabe que o fardo que assumiu não tem fim, e as pessoas mais próximas dele são justamente as que estão mais sujeitas a serem as novas vítimas de algum maníaco criminoso. O Capitão Stacy também sabia disso e, ao descobrir, à beira da morte, que o Homem-Aranha é, na verdade, Peter Parker, o namorado de sua filha Gwen, o fez prometer se afastar dela, uma promessa difícil de ser cumprida, por conta da reciprocidade desse amor jovial.  Tudo isso foi visto no primeiro filme desta nova franquia do herói, sobre o qual voltarei a falar mais adiante.

  Neste segundo longa, vemos Peter Parker (Andrew Garfield), ainda um garoto de vinte e poucos anos, tendo que conciliar os problemas típicos da juventude com o encargo que impôs a si mesmo de sair por aí com roupa colante azul e vermelha, se balançando por entre os prédios de Nova York (em belíssimas tomadas aéreas compostas em CG), colecionando hematomas e arriscando a própria vida, com o intuito de deter criminosos e salvar pessoas, algo que, com o passar do tempo, acaba se tornando verdadeiramente prazeroso para ele. Parker, um jovem prodígio da ciência, agora recém-formado – para orgulho de sua estimada tia May (Sally Field), com quem ainda mora – colabora nas despesas de casa ao trabalhar como fotógrafo freelance vendendo fotos do Homem-Aranha para o jornal Clarim Diário, ao mesmo tempo em que procura manter seu complicado relacionamento com Gwen Stacy (Emma Stone). Ela trabalha na Oscorp, empresa agora presidida por Harry Osborn (Dane DeHaan), cujo pai acabara de morrer, lhe deixando uma herança que não se restringe apenas ao aspecto financeiro… Harry, amigo de infância de Peter, possui no quadro de funcionários de sua corporação o introspectivo e mal compreendido técnico de eletricidade Max Dillon (Jamie Foxx), que venera o Homem-Aranha e que, após sofrer um improvável e “chocante” acidente, se transforma na ameaça mencionada no título do filme, podendo com isso extravasar suas aflições e inquietudes.

O roteiro, imensamente melhor desenvolvido que o do primeiro filme, consegue êxito onde o seu predecessor falhou, ao mesclar momentos de ternura (regados a muita descontração e bom humor, tão típicos do personagem nos quadrinhos) com situações dramáticas que vão se sucedendo no decorrer do longa, até chegar ao tenso e intenso desfecho em seu ato final. Há, porém, neste segundo episódio, alguns elementos inconvenientes, curiosamente relacionados à Electro, o suposto vilão principal da trama. A começar pela atuação de Jamie Foxx – que incorporou soberbamente Ray Charles na cinebiografia que lhe deu o Oscar em 2005 – que aqui compõe um personagem exageradamente caricato antes de sua “eletrificação”. Uma vez tornado vilão, a abordagem dada pelo ator é seguramente outra, mas sua dissonância de tom continua – em contraste com a sobriedade de (quase) todos os demais personagens – evidenciada a partir de então pela “paranóica” e incômoda trilha sonora que o acompanha, construída à base da junção de rap com música eletrônica, criada pelo grupo The Magnificent Six, que falha na tentativa de associar o tema à “energia” do antagonista, chegando ao ponto de irritar, por conta da insistência na execução da inconveniente mistura de sons a cada vez que o vilão aparece. A trilha incidental, contudo, composta pelo experiente Hans Zimmer é, na maioria do tempo, bem sucedida, especialmente em determinados (e decisivos) momentos do longa.

 Os devastadores confrontos de Electro com o herói (que também enfrenta outras ameaças no decorrer da projeção) são beneficiados pelo acertado uso do 3D, que aqui soube dimensionar a perspectiva da ação com a profundidade dos cenários ao ar livre, inclusive nas detalhadíssimas cenas giratórias em câmera lenta, que nos permitem perceber exatamente o que está acontecendo em volta, e acompanhar a rapidez de raciocínio do Aranha diante do imediatismo do perigo, nos proporcionando sequencias não menos do que “eletrizantes”. Entretanto, o diretor Marc Webb (o sobrenome do cineasta não poderia fazer referência maior ao herói aracnídeo) nesta sua segunda incursão ao universo do personagem, leva ao pé da letra o “espetacular” do título, ao fazer das batalhas verdadeiros shows em que os cidadãos nova-iorquinos preferem ficar assistindo ao invés de correr em busca de um local seguro. Mas, descontando-se a inevitável inverossimilhança de um filme baseado em HQs, um dos principais atrativos do Homem-Aranha como personagem é justamente o fato de ele ser um super-herói “popular”, do tipo que (quase) sempre obtém o apoio do povo acerca de seus incondicionais esforços para combater ameaças e salvar quem quer que esteja em perigo. Essa cumplicidade é capaz de comover o espectador em alguns momentos, como quando surge na tela um garotinho de 5 ou 6 anos, trajando uma fantasia do aracnídeo, e se propondo a enfrentar um vilão, em uma corajosa e absurda demonstração de reconhecimento ao caráter do herói que admira. Na vida do Homem-Aranha, portanto, não faltam emoção e comoção.

Se o primeiro filme desta nova série, lançado em 2012 e também conduzido por Webb, foi recebido com frieza e ressalvas, devido em parte ao curto intervalo que o separa da muito bem sucedia série anterior, composta por três filmes dirigidos por Sam Raimi e protagonizados por Tobey Maguire em 2002, 2004 e 2007, esta nova produção consegue justificar parcialmente a iniciativa de recontar, com a inclusão de novos elementos, uma história já tão bem contada há apenas uma década atrás. Alguns mistérios que ficaram à deriva naquele primeiro e desorientado episódio são rapidamente esclarecidos aqui, como também fica a deixa para os prováveis vilões dos próximos longas, anunciados para 2016 e 2018. Muitos também torceram o nariz na época para Andrew Garfield por considerá-lo “moleque” demais para o papel do herói, e o roteiro oscilante e mal resolvido do reboot, que não soube solucionar a fórmula drama-humor-drama, só comprometeu ainda mais essa imagem. O tempo passa, ajustes são feitos, erros são corrigidos, e O Espetacular Homem-Aranha 2 – A Ameaça de Electro consegue surpreender, ao apresentar equilíbrio na história, e coerência em (quase) todas as atuações. A vida pode não ser fácil para o Homem-Aranha, mas a experiência de vê-lo em ação pode, sim, ser espetacular, principalmente porque sabemos que ele sempre terá algo divertido para dizer, além de sempre conseguir dar a volta por cima.

Veja o trailer do filme: