[REVIEW FILME] – Godzilla

EUA, 2014, 2h 03 min. Direção: Gareth Edwards. Com: Aaron Taylor-Johnson, Bryan Cranston, Elizabeth Olsen, Ken Watanabe, David Strathairn, Juliette Binoche. Ficção Científica. Warner.

Monstro nipônico ameaça bonito, mas não convence por completo

 Godzilla é, seguramente, o monstro gigante mais famoso e longevo do cinema. A concepção visual da colossal criatura foi idealizada pelo técnico de efeitos especiais Eiji Tsuburaya, um dos pioneiros do gênero no Japão do pós-guerra. Surgia, então, em 1954, Gogira, o primeiro filme do “lagarto gigante”, sob a direção de Ishiro Honda. O nome dado ao monstro é, na verdade, um anagrama composto pelas palavras em japonês gorira (gorila), e kujira (baleia). As bombas atômicas lançadas em Hiroshima e Nagasaki em 1945 foram determinantes para fazer surgir no Japão um desejo de escapismo que encontraria no cinema e na TV as suas mais criativas manifestações. Desde então, foram incontáveis as versões (e variações) da criatura que contribuiu para a difusão deste subgênero de filme-catástrofe, e acabou se tornando um dos personagens mais queridos da Terra do Sol Nascente, adquirindo ironicamente status de herói, ao salvar Tóquio inúmeras vezes, sempre enfrentando monstros “piores” do que ele. Nas incontáveis produções realizadas regularmente a partir daí (sempre com algum ator corajoso vestindo a insuportavelmente quente e pesada fantasia do “astro”), Godzilla – como passou a ser conhecido no ocidente – já “contracenou” com as mais diversas criaturas, o que inclui dinossauros, insetos gigantes, e até mesmo King Kong, em um longa-metragem lançado em 1962.

A cultura dos “daikaiju” (filmes de monstros gigantes) se disseminou na América por meio da importação de longas-metragens e seriados japoneses, além de animes e mangás. Era só uma questão de tempo até que Hollywood percebesse o potencial que uma produção nesses moldes poderia gerar, SE fosse devidamente adaptada. Em 1998, portanto, o cineasta “destruidor” Rolland Emmerich (diretor dos sucessos Independence Day, O Dia Depois de Amanhã e 2012) levou às telas a primeira versão ocidental do famoso monstro nipônico, mas o resultado foi insosso, beirando o ridículo (como um animal daquele tamanho conseguiria se esconder nos esgotos de Nova York?). O tom do filme, leve e despretensioso demais, não agradou. No ano passado, contudo, fomos brindados nos cinemas com algo mais ousado, Círculo de Fogo, de Guillermo del Toro, que mostrava a Terra sendo devastada por criaturas gigantes que surgiam de dentro do planeta, e eram combatidas pelos enormes robôs construídos pelo esforço conjunto e inédito de todas as nações do mundo. O estiloso cineasta mexicano especialista em monstros surpreendeu a todos quando preferiu ir na contramão do que se esperaria de um blockbuster, ao levá-lo mais a sério, valorizando todo o seu potencial dramático, ainda que também tivesse seus alívios cômicos. Este mesmo “peso narrativo” pode ser sentido na primeira metade deste novo Godzilla, mas lamentavelmente esse clima não se sustenta até o seu final.

É impressionante como uma campanha de divulgação pode causar uma falsa expectativa em torno de um filme. Todas as cenas, fotos, exibições-testes e comentários feitos antes da estreia nos levavam a acreditar que este novo longa traria uma abordagem extremamente séria e dramática, que enfocaria a tragédia e o horror proporcionados pela incidência de uma gigantesca criatura caminhando pelas ruas de grandes metrópoles, causando com isso uma destruição sem precedentes. Quando o personagem-título finalmente surge na tela por inteiro, todo o suspense que estava sendo muito bem construído pelo diretor Gareth Edwards cai por água abaixo, tamanha a superficialidade da narrativa a partir de então, que se perde completamente em situações paralelas e desinteressantes, que por sua vez só vão diminuindo mais e mais a “gravidade” da trama.

A introdução do filme é promissora, trazendo, ainda nos créditos iniciais, cenas de testes nucleares realizados entre as décadas de 1940 e 50 e sua possível associação com uma suposta aberração da natureza. Somos levados então ao ano de 1999 em que conhecemos o casal de cientistas vividos por Bryan Cranston (da série Breaking Bad) e Juliette Binoche (em rápida, porém intensa participação) que são vítimas de um “abalo sísmico”, causando o desmoronamento da usina nuclear onde trabalham, no Japão (é claro).  Ela não sobrevive, e após um salto no tempo de 15 anos, o filho do casal (Aaron Taylor-Johnson, de Kick-Ass), agora trabalhando no esquadrão anti-bombas do Exército Americano em San Francisco, onde mora com a esposa (Elizabeth Olsen) e filho, reencontra o pai ainda tentando achar respostas para aquele incidente. Novos tremores irão revelar, enfim, a causa, bem como a possível solução do problema, que será exposta pelo físico vivido por Ken Watanabe (um dos atores orientais mais em evidência atualmente em Hollywood).

Nesta primeira hora de projeção o diretor investe no suspense (e nos sustos) de forma primorosa. Com a revelação da “verdade”, porém, inexplicavelmente tudo fica mais raso, justo quando deveria haver um aumento na dimensão da tragédia. O gigantesco astro do filme, muito bem concebido digitalmente, acaba sendo prejudicado pela banalização de sua própria participação. É como se o jovem cineasta (que estreou na direção com Monstros, em 2010) de repente tivesse ficado com receio de chocar demais a plateia, algo semelhante à suavização da qual Spielberg foi acusado quando entregou Guerra dos Mundos em 2005, filme não muito bem recebido por ser “limpinho demais”. Aqui a fotografia quase sempre escura e cinzenta constitui um cenário perfeito para a continuidade do clima trágico iniciado pela narrativa, o problema é que o roteiro simplesmente não corresponde, preferindo mostrar tragédias das quais até um cachorro (isso mesmo) consegue escapar. Como se não bastasse, as cenas que deveriam referenciar ou homenagear a criatura (como as que são vistas nos noticiários da TV, por exemplo), só contribuem para nos lembrar o quão artificial e banal se tornou, em sua segunda metade, o filme que pagamos para ver, uma triste constatação diante do potencial que o monstro nipônico possui, cuja abordagem poderia ter sido muito mais profunda, nos quesitos drama e terror.

Em sua segunda versão hollywoodiana, portanto, Godzilla ameaçou bonito, mas ainda não convenceu por completo. Resta apenas a diversão pura e simples de mais um filme de verão norte-americano, e a decepção de perceber que cenas que custaram milhões de dólares oferecem à plateia exatamente a mesma sensação dos filmes feitos com monstros de borracha destruindo prédios de papelão. Godzilla merecia mais.

Veja o trailer do filme: