[REVIEW FILME] – Círculo de Fogo

(Pacific Rim). EUA, 2013, 2h 12 min. Direção: Guillermo del Toro. Com: Charlie Hunnam, Rinko Kikuchi, Idris Elba, Charlie Day, Burn Gorman, Max Martini, Robert Kazinsky e Ron Perlman. Ficção Científica/Ação. Warner.

Um filme de monstros e robôs feito por quem entende do assunto

Quando Godzilla surgiu nos cinemas do Japão, em 1954, o país sentia a necessidade de espantar os traumas provocados pelos dramas sofridos durante a 2ª Guerra Mundial. O monstro gigante, portanto, criado pelo mago dos efeitos especiais Eiji Tsuburaya, era a metáfora perfeita do terror causado pelas explosões das bombas atômicas de Hiroshima e Nagazaki. A identificação imediata do público nipônico pelo entretenimento escapista fez surgir um subgênero que se disseminou além do cinema, e se espalhou pelos incontáveis animes e seriados japoneses, introduzindo também a cultura de se criar robôs gigantes para combater as tais ameaças. Essas influências da Terra do Sol Nascente atravessaram o Pacífico e chegaram à Hollywood. Em 1998 estreava a primeira versão ocidental do famoso monstro japonês, sob a direção de Rolland Emmerich, mas a produção, “leve demais”, não obteve o retorno esperado. Em 2008, o criador da série Lost, J. J. Abrams, produziu o longa Cloverfield – Monstro, em que o tema da destruição de uma metrópole provocada por uma gigantesca criatura foi abordado de forma quase documental, despertando um interesse maior por parte do público.  Há ainda os Transformers de Michal Bay, franquia iniciada em 2007, que trouxeram uma nova ótica ao tema, mais adaptada à era digital. Em comemoração aos 60 anos de sua criação, Godzilla acaba de ganhar uma releitura que prometia mais fidelidade ao monstro que inaugurou o gênero, mas o drama e o terror que eram esperados novamente ficaram apenas na superfície. O que faltaria ao gênero? Talvez a visão de um cineasta “autoral”.

– “Tenho interesse por monstros!”, sempre declara o diretor mexicano Guillermo del Toro em suas entrevistas. Sua filmografia não nega. Em Blade II, ele nos deu uma visão ainda mais sombria do Caçador de Vampiros, em seguida nos surpreendeu com O Labirinto do Fauno, e ainda nos fez conhecer o improvável herói Hellboy em dois filmes até agora, pois não se descarta a realização de um terceiro. Apesar da ideia não ter sido dele, é difícil imaginar cineasta mais adequado para levar às telas o projeto de Círculo de Fogo, concebido pelo roteirista Travis Beacham. Del Toro, entusiasmado com o conceito que estava sendo entregue em suas mãos, colaborou para a versão final do roteiro, e o resultado pôde ser visto no filme lançado com êxito nos cinemas no ano passado, e disponível em Blu-ray e DVD.

            O longa nos apresenta um planeta Terra em um futuro próximo vivendo em constante angústia diante de um drama com o qual não conseguem lidar (ecos das guerras da vida real?). No Pacífico Sul, em algum ponto da área conhecida como Círculo de Fogo, que tem esse nome devido a uma grande incidência de terremotos e vulcões, uma fenda dimensional foi aberta, por onde atravessa, de tempos em tempos, um monstro gigante que avança, provocando devastações em grande escala em diversas metrópoles à beira-mar por onde passa. Com muito esforço militarista, a ameaça era vencida, mas meses depois outra criatura surgia, e o terror continuava. “– Aquilo não ia parar”, a narração em off nos alerta ainda no início da projeção. Diante do drama constante, as nações do mundo se unem num esforço inédito e criam, em igual escala de tamanho, robôs gigantes, os “Jaegers” (“caçador” em alemão), para combater os “Kaiju” (“monstro” em japonês).

Seria mais uma história absurda e banal não fosse a personalidade do diretor,
que impõe o seu estilo, e consegue adicionar peso dramático à trama, peso esse que faltou na maioria das produções acimas citadas. Somos então apresentados à enorme plataforma que abriga os Jaegers, onde o Marechal Stacker Pentecost (Idris Elba), comanda toda a operação. Conhecemos também o piloto Raleigh Becket (Charlie Hunnam), e Mako Mori (Rinko Kikuchi, com seus expressivos olhos nipônicos e que foi vista no filme Babel, do também mexicano Alejandro González Iñárritu), que poderá vir a ser a parceira de Raleigh no comando de um dos Jaeggers, se conseguir superar um trauma de infância, que envolve um Kaiju. Os Jaegers são sempre operados por dois pilotos, e o processo de condução envolve uma conexão neural entre eles, através da qual podem compartilhar pensamentos, emoções e lembranças um do outro. E as lembranças de Mako nos presenteiam com uma das melhores cenas do filme. Ao vermos o referido flashback, é difícil não vir à tona à nossa mente aquela foto histórica da menina vietnamita correndo nua pelas ruas querendo desesperadamente fugir das consequências da guerra que estavam por toda parte. Um detalhe chama a atenção, a cor dos sapatinhos da menina, vermelho, em contraste com todo o cinza da destruição ao redor. Recurso semelhante foi utilizado por Steven Spielberg no oscarizado A Lista de Schindler, filmado todo em preto-e-branco, exceto por uma menininha usando um casaco vermelho, simbolizando a inocência, andando desoladamente por entre os campos de concentração nazista.

            Mas falando assim, parece até que estamos analisando outro drama de guerra, e não podemos nos esquecer de que Círculo de Fogo, antes de mais nada, é entretenimento. Este, portanto, é um bom momento para falar dos alívios cômicos da produção.  Charlie Day e Burn Gorman são dois cientistas exageradamente caricatos, (um deles é a cara de J. J. Abrams, coincidência?). Contudo, apesar de eles terem certa relevância na história, é constrangedor ver as tentativas nem sempre bem-sucedidas de se fazer humor diante do clima ácido que o próprio filme insiste em impor, mesmo em se tratando de um ‘blockbuster’. Mas o Hellboy em pessoa, Ron Perlman, em sua quarta colaboração com o diretor, na pele de um mercador de órgãos de Kaijus, surge para descontrair em tom um pouco mais sóbrio e talvez mais apropriado ao filme.

A estética visual de del Toro sempre foi muito apurada. É fácil perceber sua predileção por tons amarelados e esverdeados que permeiam toda a sua obra, e aqui não é diferente. Seja nos cenários subterrâneos, nas redomas de vidro que preservam órgãos dos monstros, nos riscos detalhadamente desenhados em suas carcaças ou na gosma brilhante que sai de seus interiores, seja no metal desgastado dos robôs causado por suas inúmeras batalhas, ou ainda o clima predominantemente escuro, chuvoso e sombrio que envolve quase toda a projeção, além do fato de grande parte dos combates acontecerem no mar envolto por ondas violentas, não há dúvidas de que estamos assistindo a um filme de Guillermo del Toro.  E nas poucas vezes que vemos o dia ensolarado, o contraste provocado por essa mudança de cores evidencia claramente o novo rumo que a trama passa a ter a partir daquele exato momento, comprovando o uso inteligente da fotografia.

Finalmente, as batalhas são compatíveis com o que se esperaria de criaturas e máquinas tão grandiosas, com movimentos lentos, de forma que sentimos o peso físico dos combates, e eles são de encher os olhos. Clichês? Sim, eles também estão no filme, principalmente a partir do terceiro ato. O discurso militarista, a contagem regressiva de uma bomba prestes a ser detonada, o suposto sacrifício de um determinado personagem,  a frase: “- Não morra!” dita em um momento em que sabemos que isso NÃO vai acontecer. No entanto, esses elementos são pequenos demais para comprometer a sensação de satisfação que temos após assistir a esta epopeia visual e sonora.

Círculo de Fogo é um filme escapista, como foi o Godzilla de 1954. Quase sessenta anos e um oceano de avanços tecnológicos separam um do outro, mas a essência do subgênero ‘filme de monstros’, permanece irretocável. Mesmo nós, ocidentais, continuamos com a necessidade de espantar nossos medos. A diferença é que desta vez tivemos do nosso lado um arquiteto que sabe como ninguém lidar com essas situações, pois, em se tratando de monstros, Guillermo del Toro entende do assunto.

Veja o trailer do filme: