[REVIEW FILME] – X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido

(X-Men – Days Of Future Past). EUA, 2014, 2h 12 min. Direção: Bryan Singer. Com: Hugh Jackman, James McAvoy, Michael Fassbender, Jennifer Lawrence, Peter Dinklage, Nicholas Hoult, Evan Peters, Patrick Stewart, Ian McKellen, Hellen Page, Fan Bingbing, Halle Berry. Ficção Científica/Ação. Fox.

A complexidade dos quadrinhos chega aos cinemas em um filme fabuloso

Transpor uma história em quadrinhos de super-heróis para o cinema nunca foi uma tarefa fácil. Há cerca de 30 anos, portanto, a idéia de ver na tela grande um grupo formado por personagens com poderes tão diversificados, lutando por seus destinos em uma complexa trama envolvendo viagens no tempo, só poderia existir mesmo nas mentes férteis de seus leitores. Levar essa proposta a sério seria no mínimo impraticável, para não dizer inconcebível, visto o nível de produção de que o cinema dispunha na época, além, é claro, da total falta de interesse por parte de qualquer estúdio “sério”. Recordemos a escalada que levou os X-Men a serem o sucesso cinematográfico que são hoje. Em 1981 era publicada a HQ Dias de Um Futuro Esquecido, escrita por Chris Claremont e desenhada por John Byrne, dois grandes expoentes da Marvel. Esta é apenas uma entre tantas sagas que a dupla concebeu para os X-Men, elevando os heróis mutantes a um nível de popularidade que nunca antes haviam atingido. Os fabulosos avanços dos efeitos especiais, somados a um processo de convencimento muito bem pensado, e realizado no momento certo, embasado na metáfora do preconceito incutida nas histórias dos alunos do Professor Xavier, que ganhava contornos cada vez mais condizentes com a realidade, propiciaram aos X-Men uma entrada triunfal no cinema, em 2000, sob a direção de Bryan Singer (que também conduziu o segundo longa, de 2003) e com uma contextualização coerente o suficiente para que sejam tão críveis na tela. Quase 15 anos (e seis filmes) após sua estréia nos cinemas, os heróis mutantes mostram com esta nova investida de Singer na franquia, que ainda tem fôlego para muito mais histórias.

O longa pega emprestado o título da HQ lançada há mais de três décadas, da qual foi parcialmente baseado, e que também teria sido uma das inspirações de James Cameron para criar seu Exterminador do Futuro (1984). Com base no DNA de Raven (Jennifer Lawrence), também conhecida como Mística, capturada nos anos 1970 após assassinar o renomado cientista Bolivar Trask (Peter Dinklage, de Game Of Thrones), o governo americano desenvolve uma nova geração de sentinelas, máquinas anti-mutantes, que agora possuem a capacidade de duplicar os poderes de seus oponentes. Com isso, mutantes se tornam alvos fáceis, sendo caçados e eliminados em todo o globo. Mas os sentinelas passam a ter também como alvos os humanos, simplesmente por serem potenciais reprodutores de mutantes. No futuro sombrio e desolado que se estabeleceu, uma pequena resistência, formada por Charles Xavier (Patrick Stewart), Magneto (Ian McKellen) e alguns poucos X-Men sobreviventes, tenta evitar o iminente fim. Em uma medida desesperada, Kitty Pryde (Hellen Page), envia a consciência de Wolverine (Hugh Jackman, que nasceu para este papel), ao seu próprio corpo no passado – quando ainda não tinha sido submetido à operação que revestiu seus ossos com adamantium – para impedir todos esses acontecimentos acima descritos. Assim, Xavier e Magneto dão a Logan a incumbência de achar suas versões mais jovens e convencê-los da gravidade da situação.

A exemplo do que aconteceu em X-Men – Primeira Classe (2011), elementos reais são novamente utilizados como pano de fundo, desta vez a Guerra do Vietnã e o assassinato do presidente John Kennedy, do qual o jovem e impetuoso Magneto (Michael Fassbender) supostamente teria tido algum envolvimento. A ambientação política é intensa durante toda a projeção, por conta também das articulações de Trask, envolvendo até o presidente Richard Nixon, em um emaranhado de situações que vão se intensificando mais e mais, até culminar no dramático desfecho, com repercussões para ambas as gerações de X-Men. Mas até chegarmos lá, teremos visto diversos dilemas existenciais por parte de vários personagens, o que inclui o jovem e desiludido Xavier (James McAvoy) que terá que superar suas perdas para vencer esta luta contra o tempo.

Por falar em tempo, a bem-humorada participação do velocista Mercúrio (Evan Peters) é de longe o melhor aproveitamento de ideias que já se fez até hoje no cinema para alguém que possui o poder da supervelocidade (fica a dica para um famoso personagem da editora concorrente que acaba de ganhar uma série de TV). Além da rápida (dependendo do ponto de vista) sequência à qual me refiro, vale ressaltar também o humor bem colocado em todo o filme, em gags breves, que não desviam a atenção do expectador, em meio a uma trama tão cruel. Os demais mutantes presentes no filme, e que não foram mencionados nesta crítica, apesar de terem tido um destaque um pouco maior nos episódios anteriores (o que inclui uma das heroínas mais famosas da série, vivida por uma ganhadora do Oscar), aqui são quase figurantes, mesmo protagonizando as mais angustiantes sequências de ação do longa, que nos fazem lembrar a caótica situação que estão vivendo. O envolvimento, portanto, que temos com alguns deles já há quase 15 anos nos fazem realmente sentir cada possível perda com uma intensidade assustadora e comovente.

Tecnicamente, o filme é impecável. As duas épocas em que a trama se passa foram muito bem concebidas, crédito dos figurinos, do desenho de produção e da fotografia, que optaram pelo tom diurno, colorido e alegre nos anos 70, em contraste com a escuridão trágica, gélida e deprimente vista no futuro não definido. A maquiagem, especialmente de Raven, é rica em detalhes. Os efeitos especiais reproduzem com exatidão os mais diversos poderes mutantes. E fazendo jus ao trocadilho pronto de seu sobrenome, o compositor e montador John Ottman criou uma ótima leitura musical para a trama, resgatando o tema heróico da franquia “X”, e introduzindo acordes que enfatizam ainda mais o grau de urgência que vai se tornando mais e mais desesperador à medida que o tempo, aqui tão precioso, vai passando.

A oportunidade que este filme proporciona de traçar um paralelo entre duas versões dos mesmos personagens é muito bem explorada pelo roteiro. Vemos as atitudes impulsivas, movidas a puro ódio pela humanidade, por parte de um Magneto jovem, que usa de uma criatividade sádica para manipular o metal, em defesa de uma causa em que acredita, mesmo que de uma forma distorcida. Alguns segundos depois, somos levados a presenciar a sua versão mais velha, com um terrível semblante de cansaço e arrependimento de alguém que está plenamente ciente dos atos cruéis que cometeu no passado, e que de nada adiantaram, pois ele se encontra exatamente na mesma situação de seu amigo-rival de tantos anos, Charles. Uma belíssima, ainda que extremamente triste, alegoria das mudanças de opinião que o amadurecimento pode provocar em alguém, o que também se aplica, em um nível diferente, ao Professor Xavier.

Cheio de citações e referências, o filme tenta uma coesão com todos os episódios anteriores, bem como dá pistas para os próximos caminhos que a franquia pode vir a tomar. O observador mais atento, contudo, notará facilmente algumas inevitáveis incoerências, diante de uma complexidade tão grande que a série alcançou no cinema, não deixando, neste quesito, nada a desejar aos quadrinhos. É compreensível o roteiro ter priorizado Mística, uma vez que ela é vivida por uma atriz ascendente, em evidência por protagonizar a cultuada saga Jogos Vorazes, e já com um Oscar na estante. E Jennifer Lawrence realmente faz bonito. No entanto, se fôssemos buscar harmonia (?) no universo mutante, quem duplica poderes é a Vampira. Mística é apenas uma transmorfa, ela não assume as habilidades de ninguém, como fazem os sentinelas, que foram criados a partir do seu DNA. Quanto à Kitty Pryde, neste longa ela desenvolveu uma nova habilidade além de atravessar superfícies sólidas, a de enviar consciências ao passado. Como assim? Estes foram apenas dois, entre tantos outros exemplos de continuidade ignorada que, no entanto, não chegam a causar nenhum dano maior à estupenda experiência de ver o mais novo filme da franquia mutante.

X-Men – Dias de Um Futuro Esquecido, uma fabulosa saga levada aos cinemas com uma direção segura, elenco grandioso e o que de melhor a tecnologia pode nos proporcionar hoje. Ontem, era algo absolutamente impensável. Qual história você quer ver sendo contada na tela grande amanhã?

Roberto Oliveira

(Obs.: esta crítica contou com a consultoria do colecionador de quadrinhos

Ivan Henriques da Silva)

 Veja o trailer do filme: