[REVIEW FILME] – RoboCop

RoboCop. EUA, 2014, 1h 57 min. Direção: José Padilha. Com: Joel Kinnaman, Gary Oldman, Michael Keaton, Samuel L. Jackson, Abbie Cornish, Michael K. Williams, Jackie Earle Haley. Ficção Científica/Ação. MGM.

Releitura de José Padilha é ao mesmo tempo ácida e filosófica

Uma cidade com altíssimos índices de violência. Uma força policial insuficiente e descrente, salientada por um sistema penitenciário falido e decadente e um governo omisso e indolente. Um enorme conglomerado empresarial que monopoliza a segurança pública, ao administrar a polícia local, tendo, em contradição, membros do seu alto escalão diretamente envolvidos com o tráfico de drogas e de armas. Não, este não é o roteiro de um novo Tropa de Elite, e sim um emaranhado de elementos que contribuíram para compor, há quase 30 anos, uma contundente obra de ficção científica. Ao realizar, em 1987, RoboCop, seu primeiro filme americano, o cineasta holandês Paul Verhoeven teceu – com altas doses de ironia – uma realidade incrivelmente próxima da rotina caótica e incendiária vivida pelos milhares de policiais, não apenas nos EUA mas ao redor do mundo, que têm a árdua tarefa de patrulhar e tentar manter a “ordem” nas anárquicas ruas dessas conturbadas metrópoles que há muito fugiram do controle, o que inclui, infelizmente, alguns centros urbanos brasileiros que, não raro, já vimos se transformarem em verdadeiros campos de guerra.

Este cenário da vida real, por sua vez, se mostrou um terreno extremamente fértil para que outro diretor, desta vez um jovem brasileiro, mostrasse, com uma crueza documental e assustadora, a triste e violenta realidade de seu país, com Ônibus 174 (2002) e principalmente com os dois longas da série Tropa de Elite (2007 e 2010), que lhe conferiram fama internacional e lhe renderam um convite para dirigir a nova versão de um dos filmes mais emblemáticos dos anos 1980. No RoboCop de José Padilha, disponível em DVD e Blu-ray, vemos, em um futuro próximo, unidades ED-209, do conglomerado empresarial Omnicorp, espalhadas por todos os países, garantindo a “segurança da população mundial” e derrubando toda e qualquer resistência à “pacificação” estabelecida. Ironicamente, os EUA é a única nação onde não há robôs andando por aí. É que os cidadãos norte-americanos não confiam em máquinas para salvaguardá-los do crime. Contudo, o executivo da Omnicorp Raymond Sellars (Michael Keaton), tem a ideia de apresentar à nação uma máquina que tenha sentimentos e, dessa forma, possa ganhar a simpatia do povo da terra do Tio Sam. A busca por um “voluntário” para a junção homem-software coincide com o atentado sofrido por Alex Murphy, policial de Detroit, que ganha com o projeto a oportunidade de uma nova vida. “Mas que tipo de vida ele vai ter?”, indaga Sellars. Três meses se passam, e presenciamos uma cena terrivelmente perturbadora. Alex Murphy, no laboratório, seu “novo lar”, diante do espelho, observando com pavor o que restou de seu corpo após o acidente, e se defrontando com a triste realidade de sua situação, na qual se tornou totalmente dependente da estrutura metálica que o reveste, e lhe confere um “novo corpo”.

Percebemos facilmente a forma dolorosa, ainda que contida, com que o seu “criador”, o Dr. Norton (Gary Oldman, em uma cuidadosa interpretação) se compadece de sua “criatura”. Em nenhum momento vemos empolgação no cientista, ao contrário, apenas um misto de ressentimento e complacência, uma mórbida analogia ao Dr. Victor Frankenstein da literatura. Quanto ao protagonista, o que vemos é um personagem nitidamente desconfortável com sua nova condição (numa sensível construção de personagem por parte de Joel Kinnaman), o que se intensifica quando há tentativas de reaproximação por parte de sua esposa (Abbie Cornish) e filho, tema que havia sido apenas sugerido no longa original. Esses reencontros, quando acontecem, proporcionam momentos melancólicos, que traçam a infeliz jornada de um trágico herói. Essa abordagem altera completamente a nossa forma de ver o personagem, que se distancia do “policial do futuro” que outrora proporcionava contagiantes sequências de ação. Padilha nos traz um herói amargurado, à beira do colapso mental, por conta da sobrecarga de emoções (e informações implantadas) em sua mente, e quando o vemos em ação testemunhamos um homem-máquina em um angustiante conflito interior, evidenciado pela expressão de seu rosto, mesmo quando coberto pelo capacete. Vê-lo em ação pode ser anticlimático para quem espera algum eco do herói metálico que (ainda que também tivesse seus questionamentos) empolgava plateias com seu caminhar robótico e sua pistola em punho.

O RoboCop de Padilha, de visual hi-tech, é muito mais ágil e, consequentemente, mais eficaz em suas patrulhas, e a “câmera na mão” utilizada em vários momentos pelo cineasta conferem o tom de perigo às cenas de ação, mas então por que elas não empolgam tanto quanto antes? Referências ao original, sim, elas são perceptíveis, a começar pelos famosos acordes originais compostos por Basil Podelouris que ouvimos nos créditos iniciais e em outro momento-chave do longa. Os fãs ficarão admirados ao verem as unidades ED-209 subindo e descendo escadas, ou quando ouvirem frases antológicas, das quais a mais marcante seguramente seja: “Morto ou vivo, você vem comigo.” Mas talvez a violência explícita do original tenha alimentado uma expectativa exagerada em torno do que o criador do linha-dura Capitão Nascimento faria nesta releitura, e aí resida a maior decepção. Além de possuir um protagonista frágil psicologicamente, o filme carece de sequências viscerais. As qualidades do longa de Padilha residem em seus conceitos morais, éticos e, principalmente, políticos. A obra original trazia irônicas intervenções em formato de telejornais e comerciais de TV, que mostravam uma sociedade com uma distorcida visão do “sonho americano”, incluindo até filmes institucionais promovendo a OCP, então principal acionista da força policial. Mostrava também, por meio desses mesmos noticiários, uma América completamente ineficaz com sua fracassada e vergonhosa política externa, desmoronando em suas tentativas de amenizar conflitos. E este é um dos itens nos quais Padilha acertou em cheio, ao incluir em seu longa flashes do programa televisivo jornalístico sensacionalista de Pat Novak (Samuel L. Jackson, que está em todas), que nada mais é do que uma propaganda escancarada do governo, despejando a sua “verdade” ao povo norte-americano.

Após o sucesso de RoboCop  (uma das maiores bilheterias de 1987), Paul Verhoeven quis se dedicar a outros projetos – nesta que foi a fase mais criativa (e lucrativa) de sua carreira – e realizou em seguida outras duas obras igualmente icônicas: O Vingador do Futuro, em 1990 (que também ganhou um remake recentemente, mas sem muito êxito) e Instinto Selvagem, em 1992 (que fez de Sharon Stone o sex symbol definitivo do fim do século). Quanto ao “policial do futuro”, entregue em outras mãos, um ótimo segundo filme foi realizado em 1990. O mesmo não pode ser dito do desastroso terceiro longa, de 1993, que banalizou o personagem ao nível do ridículo. Deslizando ladeira abaixo, foi produzido ainda um equivocado e desnecessário seriado de TV. Com foco no público infantil, a franquia gerou ainda duas séries em desenho animado, além de revistas em quadrinhos, games… e 27 anos após ter sido apresentado ao mundo, este ícone da Cultura Pop é resgatado pela mídia que o lançou, o cinema, e sob a batuta de um brasileiro, ávido conhecedor de um dos principais temas recorrentes do universo do personagem, a violência das ruas. Ainda que a experiência de assisti-lo não seja totalmente satisfatória, e mesmo tendo suavizado no item violência e optado por abordar temas filosóficos e existenciais acerca do protagonista, bem como os avanços da robótica como ciência e suas implicações éticas, a decisão de Padilha em investir no contexto político, resgatando com isso premissas básicas do original, pode agradar a muitos. A aceitação deste filme, portanto, dependerá muito do ponto de vista de quem o assiste. Não à toa ele tem dividido opiniões da crítica e do público.

A última fala do filme, dita com orgulho por Pat Novak, com a bandeira dos EUA à sua retaguarda, sintetiza com exatidão toda a ironia e o sarcasmo que José Padilha conseguiu imprimir à obra que entregou, superando inclusive, ao menos neste quesito, o original. O diretor tupiniquim dá uma bela alfinetada a quem a carapuça servir, deixando em Hollywood a sua marca, transbordante de acidez política. Um ácido tão “cáustico” aos olhos do telespectador quanto o líquido que é derramado sobre um capanga no filme de 1987, deixando-o completamente desfigurado. Essa “desfiguração moral” à qual Padilha nos atira com o novo RoboCop é claramente um alerta diante da arrogância de uma nação cujas decisões podem ser capazes de afetar o mundo inteiro (mesmo sem terem essa autonomia), um governo que se auto intitula no direito de interferir nas relações internacionais, impondo a sua “paz”. E viva a democracia do cinema!

Veja o trailer do filme: