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[REVIEW FILME] – Interestelar

Interestelar (Interstellar). EUA, 2014, 2h 49 min. Direção: Christopher Nolan. Com: Matthew McConaughey, Anne Hathaway, Michael Caine, Jessica Chastain, Mackenzie Foy, Casey Affleck, John Lithgow, Wes Bentley, David Oyelowo, Matt Damon.  Ficção Científica/Drama. Warner.

A Gravidade da Odisseia No Espaço de Interestelar

Um roteiro cinematográfico escrito por um cineasta notoriamente perfeccionista e meticuloso, em conjunto com um ás em ficção científica embasada em conceitos realísticos. Um filme realizado com a aplicação desses conceitos que, quem sabe, possam vir a ser palpáveis na vida real em alguns anos. Plateias estupefatas com o que veem na tela grande, uma ambiciosa obra que se propõe, durante suas duas horas e meia de duração, a aprofundar a interminável discussão filosófica acerca da importância da humanidade no universo… mais do que isso, haveria essa importância? Crítica e público com opiniões divididas, mas ninguém indiferente a essa obra, depois da qual o cinema nunca mais seria o mesmo… Estamos falando, obviamente de… 2001 – Uma Odisseia No Espaço, lançado em 1968, dirigido pelo mestre Stanley Kubrick, que co-escreveu o roteiro do filme em parceria com um exímio entendedor do assunto, o escritor Arthur C. Clarke, que lançou o livro de mesmo nome simultaneamente ao cultuado longa. O livro fez história, o bem-sucedido Clarke escreveu sequencias que aprimoraram seus conceitos e propiciaram questionamentos existenciais cada vez mais aprofundados.   O filme, amplamente apreciado nas salas de cinema por muitos que o consideraram “uma viagem alucinante” (em pleno auge da era hyppie), imediatamente se tornou um dos maiores clássicos já vistos na história da 7ª Arte.

 Quase meio século depois, há um certo déjà vu no ar, guardadas as devidas proporções. O diretor Christopher Nolan concebeu a versão final do roteiro de Interestelar em parceria com seu irmão, Jonathan Nolan. Até aí, tudo bem, pois sempre escreveram juntos.  Ocorre que toda a contextualização científica vista neste novo longa foi embasada pelas teorias do respeitável físico Kip Thorne, que contribuiu fundamentalmente para a realização deste complexo roteiro. Embora vejamos no decorrer de suas quase três horas situações absurdamente inacreditáveis, dignas das mais psicodélicas e alucinógenas doses de LSD, muito do que vemos em Interestellar poderia ser “teoricamente” possível, por mais inacreditavelmente absurdo que possa parecer (os anagramas contidos neste texto não são casuais, em concordância com as rimas do filme, e elas são muitas).

Embora haja diferenças dimensionais entre as duas obras, suas semelhanças permitem uma comparação relevante. Se 2001 levou o homem à órbita de Jupiter, Interestellar vai um pouco mais além. Se 2001 indagava quanto à capacidade do homem de evoluir no decorrer dos milênios, Interestelar se preocupa com a transcendência dos limites dos seres humanos em seus esforços para preservar a própria espécie. Se 2001 deixava um final de certa forma livre a interpretações, Interestelar traz uma cartilha científica completa com as resoluções de todos os mistérios que apresenta. Se 2001 garantiu seu lugar na história, a trajetória cinematográfica de Interestelar será definida pelo tempo.

E o tempo é quase um personagem do longa, a começar pela sua já citada longa duração, que pode passar rápida ou lentamente, dependendo do nível de envolvimento do espectador. Talvez aí resida um dos problemas mais crônicos de Christopher Nolan como cineasta: o tempo que gasta com seus intermináveis diálogos expositivos, que podem envolver (ou chatear) a plateia. Sua tradicional obsessão em explicar absolutamente tudo que se vê na tela pode até agradar alguns, que preferem o entretenimento já mastigado, sem com isso deixar de ser complexo. Contudo, dramaticamente falando, algumas sequências se tornam anticlimáticas à medida que são completamente desvendadas, e um dos sentimentos mais intensos já proporcionados pelo cinema, o suspense, simplesmente se perde em meio aos diálogos que minam toda a emoção que essas mesmas cenas poderiam causar, se NÃO fossem explicadas. Nolan, portanto, dá mais uma aula prática de como algumas horas podem parecer intermináveis décadas, ou o contrário… e não apenas na edição, mas na história propriamente dita, como já havia feito em A Origem (2010), filme que também encontra paralelo aqui em outro quesito, digamos, gravitacional.

A gravidade (no sentido literal) é outro pilar desta história da qual, quanto menos falarmos, melhor, dada a quantidade de reviravoltas e surpresas que apresenta, comprovando que, apesar de seus defeitos narrativos, Nolan ainda assim consegue nos surpreender (e muito). Semelhanças com outras obras (ou referências a elas) são várias, além das já citadas. Merecem destaque aqui os “monolíticos” robôs TARS e CASE (não há referência mais kubrickiana). A inspirada trilha de Hans Zimmer também remete à utilizada em 2001. Há, porém, outro filme ambientado no espaço que, lançado no ano passado, ganhou tamanha projeção que o levou ao patamar de novo clássico do gênero, tendo ganho 7 Oscars (inclusive Melhor Diretor) dos 10 aos quais foi indicado (recebeu também a indicação para Melhor Filme). O longa de Alfonso Cuarón, Gravidade, impressionou a comunidade científica pelo realismo das situações narradas. O melancólico silêncio espacial, costumeiramente ignorado na grande maioria dos filmes do gênero, por motivos até mesmo comerciais (já imaginou Star Wars sem barulho de explosões?), além de ter sido sabiamente utilizado no longa de Cuarón, encontra merecidamente em Interestelar o seu “espaço”. Por fim, vemos em dado momento deste novo longa de Nolan ecos da forma criativa com que foi utilizada a força da gravidade em Elysium (também lançado no ano passado), estrelado por Matt Damon, que também aparece aqui, vivendo um personagem surpreendente.

As grandes atuações que encontramos em Interestelar são mais surpreendentes ainda justamente por se tratar de um filme de Christopher Nolan, que costuma ser frio (talvez não intencionalmente) no tratamento que dá às relações pessoais em seus filmes. Nenhuma das histórias que contou anteriormente conseguiu emocionar em decorrência de algum envolvimento afetivo-sentimental. Entre as qualidades do diretor estão o realismo extremo, as sequências de tensão vistas paralelamente com edições rápidas (aqui belissimamente executadas), e as imprevisíveis reviravoltas nas tramas, capazes de gerar no espectador uma irresistível vontade de assistir novamente ao filme que acabara de ver, só para reparar nos detalhes que passaram despercebidos. O amor (no sentido mais amplo da palavra) nunca esteve entre seus temas principais… até agora.  Matthew McConaughey, vivendo o “fazendeiro” Cooper, consegue facilmente nos fazer chorar (mesmo) com suas reações ante os fatos que presencia, seja na companhia da Dra. Brand (Anne Hathaway, bela e talentosa como sempre) ou na já tão comentada cena com a câmera em close no seu rosto, em que o vemos assistindo a vídeo-mensagens enviadas por seu filho. Mas o cerne sentimental do filme está em Cooper e Murphy, uma das relações mais longevas entre pai e filha já vistas no cinema. Acredite, essa relação vai longe, as lágrimas de comoção estão garantidas.

Muitos, após assistirem 2001 – Uma Odisséia No Espaço, buscam um sentido para as soluções enigmáticas que o filme entrega. Da mesma forma, Interestelar, mesmo com o gabarito já preenchido, deverá facilmente despertar no espectador novos questionamentos dimensionais, temporais, existenciais e filosóficos. O filme subverte a lógica convencional e desafia a realidade que conhecemos, ao nos trazer buracos negros, buracos de minhoca, dobras no espaço-tempo, desdobramentos da Teoria da Relatividade de Albert Einstein, e realidades compostas por cinco dimensões, ao invés das três na quais vivemos. Mais desafiador ainda é constatar que todos os conceitos apresentados no filme possuem embasamento nos estudos mais recentes da Física, que atestam a veracidade teórica de cada um deles… teórica. Motivos mais do que suficientes para sair do cinema com aquela expressão de “entendi… mas, e se?”

Como se não bastasse, a obra ainda nos convida a uma irresistível reflexão, que pode transcender a nossa vã filosofia, ao sugerir o “amor maior” como a motivação suprema do ser humano para se manter vivo e garantir que sua espécie assim se manterá. Mas não seria isso mesmo?

Veja o trailer do filme: