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[REVIEW FILME] – Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1

Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1 (The Hunger Games: Mockingjay – Part 1). EUA, 2014, 2h 03 min. Direção: Francis Lawrence. Com: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Elizabeth Banks, Woody Harrelson, Jeffrey Wright, Natalie Dormer, Willlow Shields, Sam Clafin, Jena Malone, Stanley Tucci, Donald Sutherland. Aventura. Paris Filmes.

Série rica em conteúdo desperta no espectador o senso crítico

 Mockingjay é uma palavra criada por Suzanne Collins, a escritora desse estrondoso sucesso literário, a bombástica trilogia Jogos Vorazes. Surgiu da soma de mockingbird, um pássaro que existe na vida real, com jabberjay, esse fictício, criado na Capital, a sede do poder de Panem, nação onde toda a trama se desenrola. Mockingjay, portanto, neste mundo distópico e desesperançado imaginado por Collins, é um pássaro (cujo canto é capaz de reproduzir canções humanas) surgido do cruzamento dessas duas espécies acima citadas, e escolhido pelos rebeldes como o símbolo da revolução. Para tornar tudo mais simples, a versão brasileira resolveu chamar o pássaro inspirador simplesmente de tordo, decisão que pode ter decepcionado muitos, mas, convenhamos, tem lá o seu apelo. Mockingjay também nomeia o terceiro e último livro da série, e para a comercialização nacional, os distribuidores propuseram um título mais, digamos, esperançoso, o que também se aplica, naturalmente, à transposição para o cinema. Ao assistirmos, portanto, Jogos Vorazes: A Esperança – Parte 1, sempre que ouvimos mockingjay ser pronunciado, lemos ‘tordo’ na legenda, o que não interfere em nada na fantástica imersão que o filme oferece a este mundo cinzento e desiludido, mas tão interessante, em que continuamos a acompanhar a trágica jornada de Katniss Everdeen, e a torcer por ela.

Imediatamente após os eventos mostrados no episódio anterior, Em Chamas, Katniss é acolhida pela resistência concentrada no Distrito 13, em que a “dama de ferro” Presidente Alma Coin (Julianne Moore), juntamente com Plutarch Heavensbee (Philip Seymour Hoffman, que recebeu uma citação póstuma nos créditos finais) e Cressida (Natalie Dormer) planejam a elaboração de propagandas a serem divulgadas, de maneira ‘pirata’, por toda Panem, convocando os cidadãos a aderirem à causa rebelde contra a tirania da Capital. Para isso, será necessária a voz de alguém que represente o tordo, a esperança, a revolução… Katniss. Extremamente habilidosa com o arco-e-flecha, mas sem nenhuma intimidade com a câmera ou com a arte de interpretar – em contraste com a já habitual entrega de Jennifer Lawrence a este papel – Katniss, com sua costumeira personalidade forte, não consegue extravasar sua ira em um estúdio, e suas palavras só soarão sinceras se ela realmente estiver em pleno campo de batalha… Essas campanhas serão uma resposta às investidas televisivas veiculadas insistentemente pela Capital, em que o mestre de cerimônias dos Jogos (Stanley Tucci), desta vez muito mais contido, conversa com Peeta (Josh Hutcherson), que supostamente, para desespero de Katniss, teria traído a causa rebelde. Será?

A predominância do cinza na fotografia e nos figurinos que vemos neste longa salienta o delicado e crítico momento da história, em que o colorido espalhafatoso da glamorosa Capital vislumbrado nos dois primeiros episódios não está mais em foco. O espectador pode até tomar um susto ao ver a carismática Effie (Elizabeth Banks), outrora tão adepta de visuais à la Lady Gaga, desta vez surgindo na tela com um lenço escondendo o cabelo raspado e trajando um uniforme que facilmente a confundiria com uma detenta de qualquer sistema prisional brasileiro. Este necessário enfoque em cores tristes é complementado por cenas fortes, que enfatizam o horror do regime comandado pelo Presidente Snow. Quanto a Donald Sutherland, o pouco tempo em cena que lhe foi reservado já é suficiente para confirmar seu irretocável talento para encarnar a vilania, como na curiosa sequência envolvendo uma lâmina de barbear, que remete ao Al Capone de Robert De Niro visto em Os Intocáveis (1987) de Brian De Palma. Vemos ainda o confronto psicológico entre Snow e Katniss, que só aumenta a cada episódio, com palavras incendiárias vindas de ambas as partes.

Contudo, em meio ao cenário caótico da trama, o diretor Francis Lawrence consegue impor momentos contemplativos, de maneira que, ver um gato entretido com a luz de uma lanterna, logo após um ataque aéreo perpretado pelos soldados da Capital, não parece algo tão inoportuno assim, além da clara alusão que a cena faz do controle não apenas político, mas também midiático da sede do governo sobre os distritos. O roteiro também se ocupou em investir no triângulo amoroso Katniss-Peeta-Gale, deixando clara a instabilidade da heroína ante os assuntos do coração, em que nada está resolvido. Em contraponto, vê-la aderindo de vez à causa rebele, diante das circunstâncias trágicas que a rodeiam e que insistem em levá-la para o meio do conflito, chega a ser comovente, dado esse acúmulo de eventos tensos e aterrorizantes com os quais ela tem tido de lidar, desde que se colocou no lugar de sua irmã Primrose (Willlow Shields), como tributo, com a única intenção de defendê-la. Katniss nunca quis fazer parte de nada disso, mas se tornou involuntariamente a maior esperança da aliança rebelde.

A forte temática política, a acidez da narrativa, o teor angustiante dos desdobramentos e o iminente fim que se aproxima de forma dramática fazem de Jogos Vorazes uma série muito mais rica em conteúdo do que a grande maioria das recentes produções juvenis que o cinema tem apresentado. Seu imenso sucesso, principalmente junto ao público jovem, vislumbra em quem assiste, ou lê, um grande potencial para o desenvolvimento de um apurado senso crítico. Suzanne Collins, realizadora desta trilogia literária – que ao final do próximo ano terá sido completamente transposta para a tela totalizando uma quadrilogia cinematográfica – já pode se orgulhar por ter dado sua contribuição para a formação de adultos mais conscientes. O tordo, ou mockingjay, que ela criou, quem sabe possa servir de inspiração para muitos, e seja visto também na vida real como um símbolo de resistência, de sobrevivência… e de esperança.

 Veja o trailer do filme: