[REVIEW FILME] – O Hobbit: A Desolação de Smaug

O Hobbit: A Desolação de Smaug (The Hobbit: The Desolation of Smaug). EUA/Nova Zelândia, 2h 41 min. Direção: Peter Jackson. Com:  Martin Freeman, Richard Armitage, Ian McKellen, Orlando Bloom, Evangeline Lilly, Aidan Turner, Ken Stott, Lee Pace, Stephen Fry e voz de Benedict Cumberbatch. Aventura/Fantasia. Warner Bros.

Narrativa esticada ou liberdade criativa?

O Senhor dos Anéis, considerada a obra-prima do escritor britânico J. R. R. Tolkien, lançada a partir de 1954, durante muitos anos foi tida como impossível de ser filmada, tamanha a sua quantidade de elementos fantásticos. Quem arriscasse uma adaptação, certamente faria algo não muito convincente. Os anos foram se passando, a tecnologia evoluindo, e eis que a New Line Cinema, detentora dos direitos sobre esses livros, libera um orçamento que alcançou a soma de US$ 280 milhões para que a famosa saga do anel fosse transposta para a tela grande. E essa grana é entregue nas mãos de um cineasta neozelandês que, até então, havia feito filmes interessantes, mas com pouco retorno comercial. Ciente da imensa responsabilidade da empreitada que teria pela frente, Peter Jackson passa cerca de 4 anos de sua vida empenhado, juntamente com sua colossal equipe, a realizar, em sua terra natal, o que viria a se tornar uma das trilogias de maior sucesso da história do cinema. Após o roteiro, pré-produção, filmagem propriamente dita, pós-produção e divulgação, naturalmente vieram, com a exibição, a arrecadação (os três filmes, lançados em 2001, 2002 e 2003, somaram algo em torno de US$ 3 bilhões) a premiação (o 1º filme da saga ganhou 4 Oscars, o 2º recebeu 2, e o 3º, O Retorno do Rei, faturou 11 estatuetas, incluindo melhor filme e melhor diretor) e a consagração de um projeto que resgatou a fantasia ao cinema e elevou o gênero a um nível crível, dotado de dramaticidade e ambiguidades que não deixam nada a desejar a qualquer outro longa-metragem que igualmente tenha recebido o premio máximo da Academia. O universo de Tolkien foi, enfim, adaptado para a 7ª Arte com extrema competência, e introduzido a um público muito maior, que não havia tido contato com a obra literária. A Terra Média, composta por personagens míticos, objetos místicos e cenários ora paradisíacos, ora amedrontadores, foi mostrada com tamanho detalhismo, que todos esses elementos somados nos fizeram “acreditar” na história que estava sendo contada, e acompanhar com um interesse cada vez mais crescente, no decorrer das cerca de três horas de duração de cada filme, às várias narrativas paralelas, e por fim, à trágica e angustiante jornada de Frodo e Sam em sua reta final nas entranhas do vulcão na Montanha da Perdição, onde o Um Anel deveria ser jogado para, enfim, ser destruído.

Uma década após termos nos despedido da Terra Média, Peter Jackson nos brinda com uma nova trilogia, desta vez baseada em um único livro de Tolkien: O Hobbit, lançado em 1937. O êxito comercial deste livro infanto-juvenil fez com que a editora pedisse a seu autor que escrevesse uma continuação, o que originou a imponente saga O Senhor dos Anéis. Ao escreverem o roteiro da adaptação para o cinema, Jackson e seus colaboradores, entre eles o cultuado cineasta mexicano Guillermo Del Toro, tiveram que criar muito mais em cima do material original, pois O Hobbit não oferece narrativa suficiente para tantas horas de projeção, ainda mais porque o cineasta e os produtores cresceram os olhos diante da possibilidade de repetir as cifras obtidas na primeira incursão ao mundo de Tolkien, optando por realizar uma nova trilogia. É a partir daí que o diretor passou a ganhar uma série de detratores do seu trabalho, que desde o primeiro capítulo desta nova série – O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, lançado também com muito sucesso no fim de 2012 – não concordam com essa atitude de “esticar” a narrativa para contá-la em três filmes de cerca de três horas cada. Outros, porém, acham bem-vinda essa “liberdade criativa”, através da qual foram adicionados, além de elementos novos, muitos elos conectando as duas trilogias. A heroica presença do elfo Legolas (Orlando Bloom), é uma dessas adesões que dá incremento a este O Hobbit: A Desolação de Smaug, obviamente muito mais por conta de suas ágeis performances nas sequências de ação do que pela tentativa do roteiro de se criar um improvável triângulo amoroso envolvendo, além dele, a bela elfa guerreira Tauriel, vivida por Evangeline Lilly (da série Lost), e Kili (Aidan Turner), o mais jovem entre os 13 anões. A personagem Tauriel, por sua vez, foi criada exclusivamente para o filme, uma inclusão feminina muito bem-vinda em meio a tantos tipos grotescos e repulsivos, o que inclui orcs e trolls.

Liderados por Thorin Escudo de Carvalho (Richard Armitage), os anões continuam sua expedição rumo à Montanha Solitária, juntamente com o mago Gandalf, que consegue como ninguém impor ao mesmo tempo autoridade e serenidade (Ian McKellen, grandioso, não só em estatura, mas também em talento) e, é claro, o hobbit Bilbo (Martin Freeman, que já ganhou a nossa simpatia com a simplicidade com que compôs seu personagem). O objetivo é recuperar a Pedra Arken, uma jóia brilhante com a qual Thorin poderá reivindicar o seu trono, perdido por sua raça após a desolação provocada por Smaug, um enorme dragão que, após atacar e destruir o reino dos anões, saqueou todo o seu tesouro e, desde então, dorme dentro da referida montanha, mergulhado no imenso mar de moedas de ouro e pedras preciosas que ajuntou. Caberá ao diminuto hobbit achar a tal jóia e simplesmente roubá-la do dragão, tarefa, claro, nada fácil.


Um tema recorrente na obra de J. R. R. Tolkien, e reforçado por Peter Jackson, é a fragilidade com que o ser humano se deixa corromper pela sede de poder, aqui ironicamente representada por pequenos objetos. O Um Anel, a metáfora perfeita dessa dependência, é tão corrosivo para Bilbo quanto a Pedra Arken é para Thorin que, em certo momento da trama assume um comportamento nada nobre para um pretenso rei. A ganância também rege as atitudes dos demais governantes mostrados no filme, o que inclui o pai de Legolas, o rei élfico Thranduil (Lee Pace), que não nega o seu desapreço pela raça dos anões, se mostrando nem um pouco confiável em seus presunçosos acordos políticos.

Ainda que a história de O Hobbit não tenha o mesmo nível de dramaticidade da trilogia que o sucede (ou precede, dependendo do ponto de vista), Peter Jackson não fez concessões à escala da produção, procurando tornar esta saga igualmente grandiosa, dimensionando-a no mesmo padrão técnico de qualidade com o qual se acostumou a trabalhar, com fotografia paisagística, cenários magníficos, direção de arte primorosa, figurinos apropriados e maquiagens transformadoras, além da empolgante trilha sonora de Howard Shore, que não economiza em ecoar os temas épicos que já conhecemos. Preocupado, portanto, em incluir algum drama, em dado momento o roteiro faz uma mudança repentina. Após sequências divertidas envolvendo, entre outros perigos, aranhas gigantes e uma inusitada fuga em barris de vinho, notamos, a partir do terceiro ato, essa alteração no tom do filme, que poderia ter sido desenvolvida de forma mais gradativa, evitando esse choque brusco, que faz parecer que o projetor do filme de repente teria “pulado” algumas cenas. É neste clima de tensão que vemos, frente a frente com Gandalf, uma aparição relâmpago do maior vilão da saga, para delírio dos fãs. E é claro que quando o dragão Smaug enfim surge na tela, com toda a sua magnificência e grandiloquência, nossos olhos se encantam com a perfeição de seus movimentos, bem como de suas expressões ao dialogar com Bilbo e os anões, dublado pela imponente voz de Benedict Cumberbatch. Smaug é a nova maravilha da computação gráfica, assim como Sméagol o foi uma década atrás. Sim, é apenas espetáculo, sim, é apenas entretenimento, mas ainda assim, é cinema.  

Os três filmes da série O Hobbit foram filmados em HFR (High Frame Rate), uma nova técnica em que, ao invés dos tradicionais 24 quadros por segundo, a projeção é realizada em 48 quadros, causando uma imagem ainda mais nítida e uma sensação de movimento ainda mais próxima da realidade, mas também provocando um certo estranhamento aos nossos olhos, nos fazendo parecer, em alguns momentos, que estamos assistindo a um programa de TV em alta definição, e não a uma superprodução do cinema. Todavia, por uma questão de espaço, deixemos este assunto para uma outra ocasião. Como você já deve saber, este segundo capítulo não escapa da “síndrome do filme do meio”, pois, assim como não tem começo, não tem final. E a angustiante cena que fecha o longa prenuncia o épico desfecho que iremos conferir com a chegada de O Hobbit: A Batalha dos Cinco Exércitos. Ao fim dessa jornada inesperada, portanto, teremos nos despedido, de novo, da Terra Média.

 

Veja o trailer do filme: