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Laerte – Levando o público à reflexão

A paulistana Laerte Coutinho sempre buscou em sua obra mais do que a mera estética ou o humor. Seus quadrinhos prezam pela comunicação de ideias, por levar o público à reflexão. Se pensarmos no panteão que formava o grupo “Los 3 amigos” (que, tal como os Mosqueteiros, eram quatro), é possível, com certa licença poética, identificar Angeli, Adão e Glauco com a Ira, o Desejo, a Loucura… Todos destruidores da sociedade convencional, iconoclastas. E assim também era Laerte. Só que ao invés de destruir as estátuas, Laerte sempre preferiu sugerir que se olhasse para elas de uma forma diferente, sempre buscou incutir nos olhos do observador dúvidas sobre a imagem do senso comum. Se os seus colegas eram essencialmente punks, Laerte tende mais ao new age, à pós-modernidade.

Laerte-tira

Seus discursos raramente trazem certezas. Principalmente nos últimos dez anos, durante os quais abordou em suas tiras diárias, publicadas na Folha de S. Paulo, temas que flertam com a metafísica e filosofia, nem sempre buscando o riso. Enquanto hoje em dia se vê tantos rottweilers rosnando seus preconceitos, impondo a voz mais alta e mais grossa, Laerte segue com uma interrogação em suas falas e em seu olhar.

Uma constante em seu trabalho, contudo, é a denúncia e o combate às opressões. Enquanto grande parte dos artistas optam por manter-se neutros, pisam em ovos para não desagradar parcelas que poderiam compor seu público, ou timidamente declaram suas opiniões de forma totalmente apartada de sua obras, Laerte destaca-se por seus posicionamentos políticos e sociais.

Já em 1974, quando venceu a primeira edição do do Salão Internacional de Humor de Piracicaba – até hoje um dos principais prêmios do cartum nacional – Laerte expunha de forma engraçada, inteligente e corajosa a opressão da ditadura militar. Em 1986 publicou “Ilustração sindical”, uma enorme coletânea de charges destinadas especificamente a serem utilizadas pelos movimentos sindicais.

Charge vencedora da primeira edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 1974

Charge vencedora da primeira edição do Salão Internacional de Humor de Piracicaba, em 1974

Nos últimos anos vem se posicionando também contra a onda conservadora que toma conta da agenda política nacional. Se por um lado não coloca-se abertamente a favor do governo petista, por outro ataca com rigor a atuação das alas mais à direita do Congresso em questões como a maioridade penal e os direitos LGBT.

A ousadia do discurso de Laerte pode ser vista nas charges das segundas-feiras, na página 2 da Folha, sendo que aí os desenhos sempre guardam relação com as notícias do dia. Um marcante exemplo foi publicado em 15/09/2015, quando, pouco depois da Folha fazer em sua primeira página uma espécie de ultimato, pelo qual dizia que a Presidenta da República deveria resolver a crise econômica ou renunciar, Laerte criticou a postura antidemocrática da imprensa.

Charge publicada na Folha de S. Paulo em 15/09/2015.

Charge publicada na Folha de S. Paulo em 15/09/2015.

As tiras de Laerte são publicadas diariamente na Folha de S. Paulo desde 1991, e variam ao longo deste tempo da mesma forma que o próprio autor, hoje autora, variou. Em certos momentos elas expõem as relações de poder no mundo, nas cidades, nos condomínios… em outros ela se volta para dentro da cabeça, do artista e do leitor, e questiona sobre a vida, a existência, a divindade.

Laerte vive junto de sua obra. Sua honestidade criativa neste sentido é tanta que o personagem de suas tiras que servia como uma espécie de alter ego seu – Hugo Baracchini – foi aos poucos experimentando a transgeneridade durante os anos 2000. A partir destas histórias Laerte passou a ter mais contato com pessoas que praticavam o crossdressing, e somente anos após a sua personagem passar por este processo – assumindo a personalidade de Muriel – foi que a desenhista adotou de forma pública e permanente sua identidade feminina.

Além do convite à reflexão, outro elemento sempre presente em Laerte é a clareza e a instrumentalidade de seu traço. A cartunista é capaz de transitar em seus desenhos entre a simplicidade da garatuja e um classicismo quase renascentista, sem excluir a mistura entre diversos estilos em um mesmo desenho. Sua obra não se trata do que ela “consegue” desenhar, ou meramente do estilo de seu traço. Trata-se, sim, de qual mensagem ela pretende passar. A artista tem a sensibilidade para imaginar qual reação um desenho minimalista ou detalhista, monocromático ou em aquarela, causará no receptor. Não se trata apenas de saber quais palavras usar e quais objetos ou situações desenhar. Laerte usa sua arte para expor suas ideias de uma forma que apenas os quadrinhos podem expressar.

Os trabalhos mais antigos de Laerte, que incluem histórias que se tornaram grandes clássicos do quadrinho nacional, como “A noite dos palhaços mudos”, “A insustentável leveza do ser” e “Fadas e bruxas”, podem ser encontrados nos sebos nas edições das revistas Circo e Piratas do Tietê, publicadas no final dos anos 1980. Também podem ser encontradas em livros, como a ótima coletânea “Histórias repentinas” (Jacaranda/Devir) e a recente obra “Humor paulistano” (SESI-SP), que além de reproduzir alguns trabalhos conta a história da geração de Laerte.

Fadas e Bruxas, história publicada na revista Circo

Fadas e Bruxas, história publicada na revista Circo

Há vários outros livros, como os volumes de “Striptiras”, coletâneas de bolso de tiras publicadas pela L&PM, “Muchacha” (Companhia das Letras), “Deus segundo Laerte” (Olho d´água) e “Hugo para principiantes” (Jacaranda/Devir). Também é possível acompanhar a quadrinista na televisão, em seu talk show “Transando com Laerte”, na GNT. Outro trabalho marcante de Laerte para a televisão foi como roteirista do humorístico “TV Pirata”, que pode ser encontrado em DVD. Vale a pena conferir também o blog Labirinto do Minotauro, onde Laerte publica suas tiras alguns dias depois de saírem no jornal.

Basicamente, não há obra de Laerte que não valha a pena conhecer. Seu espírito provocador é sempre enriquecedor, superando a simples comicidade. Quem lê as questões propostas por Laerte e permite-se ser questionado também certamente torna-se alguém melhor do que era antes.