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Uma viagem bizarra e surreal pelo estranho e fantástico mundo de Tim Burton

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Tim Burton, o cineasta, todos nós conhecemos. A amplitude de seu trabalho visual, no entanto, se estende para além das telonas, e é justamente essa faceta do autor, até então menos conhecida, que pode ser vista na exposição O Mundo de Tim Burton no MIS – Museu da Imagem e do Som. Após ter sido exibida pela primeira vez em 2009 no MoMA (Museu de Arte Moderna) de Nova York, e de ter passado por Los Angeles, Paris, Melbourne, entre outras, chegou a vez da maior cidade da América Latina, São Paulo, receber a mostra e conhecer um pouco mais do arrepiante e espantoso, e ao mesmo tempo encantador e maravilhoso trabalho criativo deste cultuado diretor, por meio de seu acervo pessoal. Abóboras, morcegos, caveiras, palhaços, personagens não ajustados à sociedade, apresentados com grandes olhos, corpos finos, cabelos despenteados, figurinos pretos ou listrados, em cenários sombrios e ambientações góticas, vivendo situações que fazem junção do grotesco com o cômico e permeadas por um humor ácido são todos elementos muito familiares aos fãs do artista. Como não poderia deixar de ser, é esse estilo ‘burtonesco’ que permeia toda a mostra, podendo até causar estranheza aos mais desavisados, e agradar em cheio quem esperava justamente por essas estranhezas.

03Nascido em 1958 na pequena Burbank, cidadezinha californiana localizada atrás da montanha onde se encontra o letreiro mais famoso do planeta, “HOLLYWOOD”, Timothy William Burton já enxergava nessa circunstância geográfica uma metáfora para suas metas de vida. A terra do cinema estava de costas para ele, mas não por muito tempo… Assim como o protagonista de seu filme Peixe Grande, o jovem Burton certamente já devia imaginar que estava destinado a realizar grandes feitos. Uma infância reclusa no próprio universo que criou e uma adolescência em ebulição criativa resultaram, por fim, em um realizador único, merecedor do reconhecimento mundial conquistado ao longo dos anos. Os holofotes, porém, não vieram sem que as criações macabras do então aspirante a ilustrador a princípio causassem estranheza e incompreensão, duas palavras que ajudam a definir a trajetória do hoje consagrado cineasta. E a curadoria do MIS, ciente do peculiar material que iria expor, inovou, ao montar a mostra de forma diferente da realizada nos outros países por onde passou, desta vez oferecendo aos visitantes uma completa imersão à alucinada mente desse autor tão incomum. Com isso, a visitação torna-se uma viagem surreal e lúdica pelos sentimentos que fazem parte da vida e da obra do visionário diretor, produtor, escritor, desenhista, fotógrafo, artista plástico, criador de fábulas. Terror/Humor, Felicidade, Angústia/Melancolia e Encantamento​ nomeiam, portanto, as seções da mostra que traz ainda um espaço dedicado a seus projetos não realizados e outro reservado à sua filmografia.

04Antes de tudo isso, porém, ao atravessar a ‘boca’ na entrada da mostra, somos conduzidos ao ‘cérebro’ de Tim, onde encontramos vários pôsteres e cenas de filmes que ele assistia quando criança, e que moldaram suas preferências pelo fantástico, com destaque para o terror. O expressionismo alemão, uma das influências mais evidentes e constantes em sua obra, está representado na mostra por cartazes de clássicos como O Gabinete do Dr. Caligari, de 1920. Também marcam presença o longa The Bat, de 1926 (que teria sido uma das inspirações de Bob Kane para a criação do Batman), os monstros clássicos da Universal, os gigantes radiativos do cinema japonês, além dos filmes que contaram com a então revolucionária animação em Stop Motion de Ray Harryhausen, como o King Kong de 1933 e Jasão e os Argonautas, de 1963. O clássico italiano de Frederico Fellini, , também de 1963, é outro que se faz notar, formando um curioso contraste com as demais obras acima citadas, sugerindo que Burton era um cinéfilo muito mais eclético do que imaginávamos.

05Nos corredores seguintes, o visitante encontra desenhos que o realizador fez em diversas fases de sua vida, e em diversos tipos de papel, o que inclui blocos de notas e guardanapos de restaurante! Ou seja, se uma ideia passasse pela sua cabeça, ele a desenhava imediatamente, e onde quer que estivesse, o que lhe servia de válvula de escape para extravasar seus devaneios doentios, alguns dos quais ele conseguiu transpor para a tela grande do cinema, onde seriam vistos e admirados por milhões de pessoas ao redor do globo. Muitos desses esboços feitos por Tim anos atrás são quase idênticos às versões finais que conhecemos, como o Jack Skellington caminhando no pico do morro que vai se abrindo conforme seus passos avançam, em O Estranho Mundo de Jack, ou o adorável cãozinho Sparky, trazido de volta à vida por seu dono, o Victor Frankenstein em versão mirim visto em Frankenweenie. Em outro momento, é possível observar desenhos de um livro infantil concebido por Burton em 1976 nos moldes da Disney e que em nada lembram seu traço ‘burtoniano’. Ele os fez assim propositalmente na tentativa de convencê-los a contratá-lo como estagiário de animação. Também está à vista a carta que o estúdio lhe enviou, negando a vaga, mas o incentivando a continuar insistindo. Tim seguiu o conselho… O tão sonhado estágio na Disney veio, afinal, em 1979, onde permaneceu até 1984, período em que suas bizarras ideias ainda não eram completamente aceitas. Nas palavras do próprio cineasta: “Eu já fui contratado e demitido pela Disney umas cinco vezes!”

06Em sua breve passagem pelo Brasil em Fevereiro, o norte-americano conversou com fãs, concedeu entrevistas à imprensa e se mostrou prestativo e atencioso com os inúmeros ‘burtonenses’ que encontrou. “Me senti em casa aqui”, se referindo também à inovadora montagem brasileira da exposição, que muito lhe agradou, e que reserva algumas surpresas interativas ao visitante (não vou revelar que, para descer pela ‘garganta’ do diretor e chegar ao ‘coração’, você pode usar um escorregador gigante… ooops). O visitante ainda pode assistir a trechos de algumas de suas obras mais obscuras, como a tenebrosa (no bom sentido) versão de João e Maria que ele fez para a Disney Channel, e que lá foi exibida uma única vez, em 1983. Hoje, esse média-metragem está na rede, para ser redescoberto e apreciado. Seu projeto de animação Stainboy, bem como seus livros ‘infantis’ são outro achado da mostra, além do Menino Balão, um boneco inflável de cerca de 6 metros de altura que olha em várias direções e até pisca para o público! Contudo, quem esperava ver maquetes, bonecos e figurinos de famosos personagens vistos na telona poderá sair um pouco decepcionado. Apesar de terem sido expostos nas outras cidades mundo afora, a maior parte desses itens infelizmente não compuseram a ‘versão brasileira’ da exposição. Já imaginou a emoção de ficar frente a frente com a armadura original usada por Michael Keaton no Batman de 1989? É, eu também fiquei só imaginando… Mas há alguns bonecos dos seus filmes em Stop Motion que ajudam a diminuir um pouco o desapontamento causado por essas lamentáveis ausências.

07Observando atentamente a concordância dos trabalhos do artista, compreendemos melhor suas escolhas visuais e identificamos com facilidade os temas recorrentes na sua filmografia. Por exemplo, é fácil notarmos a frequência com que o Natal e o Halloween aparecem em suas obras, nunca de maneira convencional. E já repararam como ele sempre procura dar destaque a objetos cortantes em seus filmes? Sejam navalhas de barbear, mãos-canivete, unhas ou garras afiadas e… claro, tesouras! Assim o excêntrico criador consegue, com seu talento e uma visão crítica que distorce a sua realidade, filtrar elementos grotescos e convertê-los em algo bucólico, e com isso criar personagens que ganham a nossa simpatia exatamente por suas inadequações, mostradas de forma tão lúdica. Espanto diante do diferente, e deslumbramento diante do fantástico, isso é Tim Burton! Seu estranho e fabuloso universo, mesmo que apenas uma pequena parcela dele, está à disposição para visitação no MIS – Museu da Imagem e do Som, em São Paulo, até o dia 15 de Maio. Para quem é fã, programa obrigatório! Para quem o conhece só de ouvir falar, também vale muito a pena.

08Depois de atravessar a cortina preta (claro) onde se lê The End, o visitante da exposição O Mundo de Tim Burton nunca mais verá um filme do estilizado realizador com os mesmos olhos, pois estará plenamente familiarizado com as ideias absurdas e maravilhosas que saem de sua mente insana e brilhante. Seu novo filme (cujo trailer você confere abaixo), a julgar pelas primeiras cenas divulgadas, promete causar um encantamento tão grande quanto aquele proporcionado pelas suas melhores obras. Sua arte, portanto, continuará a se fazer presente, e no melhor canal possível para exibição, a tela do cinema.

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Veja o trailer de O Lar das Crianças Peculiares, o novo filme de Tim Burton, que deve chegar ao Brasil em breve.